Sociedade

Catarina Gomes: “Não é por haver gás em Portugal que ele será mais barato”

16 ago 2019 00:00

Entrevista | a activista que foi, até recentemente, a face da Linha Vermelha, associação que luta contra a alteração climática, alerta para a necessidade de Leiria inovar na cultura e parar de fazer igual aos outros

Jacinto Silva Duro

Esteve à frente da Linha Vermelha, plataforma de luta contra as alterações climáticas e exploração de hidrocarbonetos em Portugal. O que a levou a sair da sua zona de conforto e dar a cara por essa causa?
Faz parte da minha personalidade. Gosto de sair da minha zona de conforto. Sou uma cidadã activa, que faz questão que o seu futuro esteja nas suas mãos e é essa a forma correcta de vivermos em democracia e em sociedade. Quando vejo que posso alterar coisas que nos afectam, envolvo-me. A questão ambiental é crucial e, em especial, em Portugal a exploração de recursos fósseis como o petróleo e o gás. Vivi muitos anos fora e quando cheguei a Portugal pareceu-me óbvio que tinha de ajudar, pois está a acontecer uma coisa errada e retrógrada, com impacto grande na minha vida e na de todas as outras pessoas. Acabou por se tornar na minha vida profissional, comigo e com o João Costa a gerirmos a campanha da Linha Vermelha. Foi uma coisa de base, que foi criada por ambos e arranjámos forma de a financiar, sem ter de depender de terceiros. Actualmente, as pessoas vão ao supermercado e não se apercebem que a nossa comida vem da natureza. Havendo um crime ambiental e uma decisão política pouco inteligente, para mim fez sentido envolver-me e colocar à disposição as minhas competências profissionais nas áreas da estratégia e da comunicação. O que é estranho é não haver mais pessoas a fazer o mesmo. 

Os portugueses não se interessam?
Não há só uma única forma de analisar a realidade. No que toca à natureza, como vivemos numa sociedade cada vez mais industrializada, é complicado para o cidadão comum entender a ideia de que a natureza nos dá coisas. Já ninguém planta batatas para comer. Vai ao supermercado e, caso não haja fornecimento suficiente em Portugal, elas são importadas de outro país. As pessoas não chegam à conclusão de que, caso haja crimes ambientais, podem ficar sem comida. Há uma desconexão dos cidadãos entre a vida e a natureza. 

Há pouco tempo, o ambientalista João Camargo disse, em entrevista no JORNAL DE LEIRIA, que as vagas de calor que têm atingido a Europa terão impactos negativos na agricultura e que o preço dos alimentos, subirá. Comunga dessa ideia?
É óbvio e percebe-se fazendo uma leitura à economia. As leis da oferta e da procura ditam isso mesmo. Há vários estudos que mostram que as pessoas, não apenas os portugueses, têm dificuldade em pensar a longo prazo, quer seja no ambiente, quer seja na poupança, na reforma. Criar objectivos a dez e 20 anos… Têm muitas dificuldades em pensar em encadeamentos de consequência. E isto passa-se também na questão da comida e das alterações climáticas. Costuma dizer-se: "pensa nos teus netos e naquilo que lhes vais deixar". Mas as pessoas não o fazem. Em Portugal, o que se passa, especificamente, é que saímos de um sistema de ditadura pautado pela baixa literacia, pelo impedimento da participação cívica, e, hoje, ainda estamos presos à ausência de educação para o civismo, para o consumo de dados, para saber interpretar o que se lê na Internet e na ideia de que "alguém irá cuidar de nós", e que a culpa de tudo é do Governo ou de não sei quem. 

É uma atitude pouco democrática... 
É natural que as pessoas pensem assim. Culturalmente, sempre fomos dependentes de alguém; da Igreja, da caridade… Está na hora de o País ganhar confiança em si mesmo e de as pessoas perceberem que podem decidir o futuro e fazer as coisas com as suas próprias mãos, sem cair na ideia de faroeste. O que fazemos no activismo ambiental não é uma confrontação. Não queremos forçar ou agredir ninguém. Queremos chamar a atenção para a necessidade de mudar comportamentos individuais e o consumo, mas temos também de exigir, aos grandes produtores que são os maiores causadores da parte humana das alterações climáticas, que mudem métodos de produção e a quantidade que produzem. Não basta parar de usar o cotonete ou a palhinha de plástico. Isso é residual. 

O que respondem a quem critica a Linha Vermelha por querer "acabar com o gás e com o petróleo"?
Opomo-nos à prospecção e exploração de gás na Bajouca e em Aljubarrota, mas propomos investimento e transição para energias mais limpas em que Portugal é muito mais rico. Além disso, há várias coisas que o público deve perceber: primeiro, o gás, não é "natural". É fóssil, é um recurso… Estamos a tirar algo à natureza e a devolver outras coisas que podem ser prejudiciais para a nossa casa, a Terra. Em segundo lugar, não se vai fazer um furo em Aljubarrota ou na Bajouca e o gás vai directo para o fogão da cozinha lá de casa. Isso é apenas propaganda. Também não é por haver gás em Portugal que ele será mais barato. Não temos, de acordo com os contratos, prioridade de compra. O gás pode ir para outro país onde o paguem mais caro. Estamos a falar de uma multinacional cujo objectivo é fazer lucro… Se for mais rentável vender o gás para o Canadá, é para lá que ele irá! Não é uma questão de orgulho nacional, nem de interesse energético nacional. Leiam os contratos assinados entre a Australis e o Governo. É muito fácil. São públicos, estão online e está lá tudo. Segundo cálculos matemáticos e científicos, sabemos que é agora ou nunca que temos de alterar os nossos hábitos de consumo e temos de investir na transição dos combustíveis para fontes renováveis e abundantes de energia, como o sol, o vento ou o mar. E há a questão dos consumos. Não percebo como uma família de três pessoas, na Marinha grande, precisa de três carros para percorrer 100 metros. Temos de pensar no planeta como se fosse o nosso orçamento familiar para o mês. Se temos mil euros, não podemos gastar mais! Entendo que lutamos a vida toda para termos o básico; acesso à educação, casa, carro, comida e agasalho para os nossos filhos. Não questiono isso. Todos o merecemos. No entanto, temos de avaliar o que é conforto e o que é excesso de conforto. 
 

Perfil 
Especialista em comunicação e inovação 

Catarina Gomes, 35 anos, trabalha em media, inovação e jornalismo. Cria e desenvolve projectos em áreas como os Direitos Humanos, Direitos Sexuais e Ambiente na Europa, Ásia, África e América Latina. O fio unificador do seu trabalho é a inovação, quer tecnológica - digital, realidade virtual e aumentada -, quer de impacto social. A mais recente experiência de realidade virtual com a qual trabalhou fez parte da selecção oficial dos festivais de cinema de Veneza e de Nova Iorque e venceu o Prémio de Melhor Uso de Arte Imersiva, no Festival South by Southwest, nos Estados Unidos. Está agora a colaborar no projecto Manicómio, onde vai lançar a primeira revista no Mundo feita por pessoas tocadas pela doença mental. É mestre pela Universidade de Aarhus e pela de Amesterdão.

O facto de ser natural da Marinha Grande pesou na sua actividade enquanto activista?
A tradição vidreira está presente na sua maneira de ser? O meu pai foi preso político no Aljube e o meu tio foi membro activo da resistência contra a ditadura de Salazar. Ao crescer na Marinha Grande, somos influenciados pela ideia romântica de sermos contra a injustiça e isso, obviamente, tocou-me. A mim e a muita gente natural da cidade. Mas há muita gente que está envolvida no activismo ambiental e na luta pelos Direitos Humanos, que não vem da Marinha! É uma questão de civismo. Tive a sorte de ter pertencido a vários movimentos juvenis cívicos, enquanto crescia, que mudaram a minha forma de ver o Mundo e de participar. Além disso, sou uma pessoa com muita curiosidade. Se olharmos agora a Marinha Grande, vemos que há muita falta de participação cívica. Se calhar a cidade deve olhar para o seu passado recente. 

Perdeu o espírito reivindicativo?
É outro tipo de reivindicação. Na época da ditadura, lutava-se contra a falta de liberdade, contra os salários baixos e exploração dos trabalhadores… O meu pai, por exemplo, começou a trabalhar aos cinco anos! Era uma reivindicação que assentava na sobrevivência. Felizmente, o que agora devemos reivindicar já não é a sobrevivência a curto prazo, mas a sobrevivência a longo prazo. Temos falta de educação e informação para exigir a autarcas, governantes e empresas, melhores condições a dez, 20, 30 ou 100 anos. A Marinha Grande é um centro operário onde as pessoas, imersas na rotina ou a trabalhar em turnos e com famílias, não têm muito tempo para pensar noutras coisas. 

Qual deveria ser a maior reivindicação da população da Marinha Grande? 
A questão do Pinhal de Leiria e da Mata Nacional é ridícula! É curioso que, após a situação com o Observatório do Pinhal do Rei, já vai existir um posto do Observatório da Mata que será aberto na cidade - não se sabe daqui a quantos anos. Entretanto, a floresta vai-se degradando com mais invasoras, com mais eucalipto e sem pinheiro nem espécies autóctones. É importante trazer um centro de poder para a região, mas não é menos importante que os líderes locais sejam melhores na comunicação e mobilização que fazem na comunidade. O facto desses líderes - como a presidente da Câmara Municipal da Marinha Grande - não falarem com as populações, não irem ao terreno e não verem as estradas fecha- das na Mata, revela uma  

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