Entrevista

Carlos André: “A questão ambiental destrói claramente a imagem de Leiria”

9 jul 2020 13:00

Escolhido pela Câmara para liderar o grupo que está a traçar a estratégia de Leiria 2030, confessa que ficou “espantado” com a candidatura a Capital Europeia da Cultura. Hoje, reconhece, há motivos mais do que suficientes que a justificam. “Leiria tornou-se num alfobre cultural prodigioso.”

Maria Anabela Silva

Em Janeiro foi escolhido para coordenar o grupo de trabalho a quem a Câmara incumbiu a tarefa de planear a estratégia de Leiria 2030. Aceitou o convite de imediato ou hesitou?
Hesitei. Pensei que, se era para fazer um plano estratégico nos modelos tradicionais, isso era tarefa para um sociólogo, um arquitecto ou um geógrafo e não para um professor de literatura. Só aceitei depois de conversar muito com o presidente da Câmara sobre o que se pretendia.

O que é que lhe foi pedido?
Pretende-se que eu seja capaz de ouvir, de falar com pessoas, de estar em debates, de colher ideias e, depois, escrever o resultado dessa reflexão, com ideias mestras para o desenvolvimento do concelho na próxima década. Exige-se de mim uma grande capacidade de ouvir, de estar calado, de interpretar as pessoas e de estudar documentos. Pareceu-me fascinante poder pegar em todas as ideias e informação recolhida, fazer uma síntese e projectá-la a dez anos. Estava longe de imaginar que daria tanta polémica.

Das críticas feitas à sua escolha, qual a que lhe custou mais ouvir?
Já lido muito bem com as críticas. Mas custa-me que as pessoas se agarrem a uma imagem de alguém sem se darem conta do tempo que passa. Não é justo que guardem no bolso a fotografia que tinham de mim sem cuidarem de saber qual o retrato actual. Já não tenho actividade partidária desde que sai de Leiria, em 2013, e nessa altura tinha pouca. Era presidente da Assembleia Municipal (AM). Não há, nos últimos anos, uma linha escrita por mim sobre questões de natureza politíco-partidária. Não se trata de uma travessia no deserto. Quem o atravessa, espera sair do outro lado para alguma coisa. Nem sequer é isso, porque não sou candidato a candidato a coisa nenhuma. É uma porta fechada. Ainda que eu tivesse alguma actividade partidária, isso em nada me diminuía o mérito profissional. Tenho uma carreira que fala por mim e um percurso que não preciso de defender em lado nenhum. É um bocado estranho que as pessoas olhem para isto de uma forma miudinha, embora perceba que a lógica do conflito político é essa.

Como está a desenvolver o trabalho?
Já ouvi pessoas de toda a natureza e dirigi convites, onde se incluem os líderes das bancadas da AM, os antigos presidentes da Câmara, com quem já falei, e os cabeças-de-lista ao Parlamento pelo distrito eleitos nas últimas legislativas. Já ouvi perto de 70 pessoas, mais de metade são os improváveis, aqueles que dizem que nunca ninguém os quis ouvir. Quero a opinião de pessoas que olham para a cidade andando no meio dela. Estas coisas costumam ser feitas ouvindo os institucionais, mas desses já sabemos muito do que pensam. Ouvi jovens arquitectos e professores do Politécnico que me deram ideias fantásticas.É de tudo isso que se vai fazer aquilo que vou escrever. Estou também a tentar obter a visão dos actores políticos.

Olhando hoje a fita do tempo, não terá sido imprudente ser mandatário de Walter Chicharro, nas eleições para a Federação do PS, ao mesmo tempo que aceitava o convite da Câmara?
Confesso que não pensei nisso. O convite de Walter Chicharro aconteceu antes do da Câmara. Se tivesse vindo depois, talvez tivesse declinado. Aceitei ser mandatário porque não sou de dizer que não e foi um gosto desempenhar as funções. Por outro lado, não era razão para recusar o convite da Câmara. Não vejo que as coisas sejam incompatíveis. Um mandatário é uma flor numa jarra. Nunca participei em acções de campanha. Já não tenho jeito para isso.

A que se deve esse fecho de porta à política? Desilusão?
Não é desilusão. Tudo o que fiz na política, como ser governador civil e presidente da AM de Leiria, deu-me prazer. Também fui autarca em Ourém e integrei alguns órgãos políticos. Nada me decepcionou. Vivo a vida por capítulos. O Dr. Laborinho Lúcio, o nosso senador mais senador que integra o grupo alargado responsável pela estratégia de Leiria 2030, dizia, quando integrou o Governo, que 'estava' ministro'. Ora, em todas as funções que desempenhei, também estive. Quando terminam, fecho o capítulo. Apenas fui professor. No resto, estive transitoriamente. Já não tenho muito jeito para retomar caminhos vividos. A mesma água não passa duas vezes debaixo da mesma ponte.

Hoje, tenho a convicção profunda de que o Politécnico de Leiria merece ser universidade. É incontornável em Leiria. Se estamos a falar da estratégia para a próxima década, nada do que se projecte pode ser pensado sem o Politécnico.
Carlos André

O trabalho da estratégia Leiria 2030 está agora a começar, mas terá seguramente em conta o projecto Capital Europeia da Cultura 2027. Passaram agora cinco anos que foi anunciada a candidatura. Ficou surpreendido?
Confesso que fiquei um pouco. Não estava em Leiria e não vivi a transformação cultural que estava a acontecer. Por vontade própria, pus-me de fora. Queria ter a surpresa de regressar e de ver que a criança

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