Sociedade

António Sousa Pereira: “Não há inocentes em Portugal”

3 out 2019 00:00

Entrevista | O reitor da Universidade do Porto opõe-se ao corte de vagas no litoral, pois considera que só as privadas saem beneficiadas e concorda que os politécnicos atribuam doutoramentos

Afirmar a Universidade do Porto (UP) na investigação e na internacionalização foram promessas quando se candidatou.
Neste momento, fazemos parte de um consórcio europeu de cinco universidades, contando com a do Porto, e vamos avançar com um projecto para o qual já obtivemos financiamento da Comissão Europeia. A internacionalização também tem tido um reforço muito grande do número de alunos estrangeiros que estudam na UP. Não contabilizando os estudantes Erasmus, temos mais de quatro mil estudantes estrangeiros.

É uma forma de travar a quebra de alunos?
É uma forma de resolvermos alguns problemas que temos no nosso País. Estamos a perder muitos dos nossos melhores alunos para outros países que lhes oferecem condições de trabalho e de vida. Uma forma do País se manter competitivo e ter os cérebros de que necessita é conseguir atrair jovens de outros países. Não é provável que se consigam atrair para Portugal jovens provenientes dos países mais ricos da Europa, mas podemos atrair gente de países mais pobres, onde as condições de vida são mais precárias do que em Portugal. Muitos desses países têm excelentes sistemas de ensino e, portanto, estão a produzir jovens com elevadíssimas qualificações. Temos obrigação de os cativar e esperar que alguns deles permaneçam no País e nos ajudem a compensar a perda dos nossos.

A UP tem a média mais alta do País e das mais altas em muitos cursos. O que faz os melhores alunos escolheram a UP para estudar?
Escolhem porque a UP é boa e há 'um passa a palavra'. A UP tem uma implantação nacional. Temos os melhores alunos de todo o País: alunos que vêm do Algarve que preferem vir para o Porto do que estudarem no Algarve ou até em Lisboa ou Coimbra que é mais perto. Isso resulta desta noção que se espalhou de que é uma universidade diferente das outras.

O que a diferencia?
O ambiente académico. Não nos podemos esquecer que estamos no Porto, que é uma cidade que só por si tem um atractivo cada vez maior. Por outro lado, houve um investimento feito no sentido de transformar a UP numa universidade de investigação, criando-se condições para os estudantes, como melhores laboratórios e salas de aula. O investimento que também tem sido feito na modernização das práticas pedagógicas, tornou a UP numa universidade atractiva e os alunos reconhecem- na como sendo uma universidade de futuro.

O problema do alojamento é transversal ao País. Como é que a UP pode contribuir para ajudar os alunos?
Temos de distinguir o problema que existe daquele que é relatado pela comunicação social, que é uma hipérbole do que existe. Há problemas de alojamento no centro da cidade. Isso é um facto, o que implica que os padrões de comportamento que vinham do passado têm de ser alterados. Os estudantes têm de passar a procurar alojamento nas zonas mais periféricas da cidade como acontece em todo o mundo. Nenhum estudante que vai estudar para Londres ou para Paris vai procurar alojamento no centro. Isso não existe em nenhum lado civilizado do mundo. Existia cá. Era uma vantagem, mas também era fruto do nosso atraso em muitos aspectos. Aquilo que estamos a tentar fazer é ensiná-los a procurar alojamento ao longo das linhas de metro e de comboio, em sítios onde facilmente têm acesso às faculdades e onde conseguem arranjar alojamento por preços muito inferiores aos do centro da cidade.

Defende que se deve colocar o estudante no centro do processo educativo e da investigação. De que forma?
Pode-se fazer isso na definição dos mapas de vaga de acesso à universidade. Em Portugal, há quem defenda o controlo dos mapas de vagas em função daquilo que são as necessidades do País. Isso significa implementar numa democracia ocidental um modelo soviético. Os nossos jovens devem ter acesso a cursos de maneira diversificada e sem problemas. Isso implica desde logo mudar a mentalidade no acesso. Depois temos de desenvolver modelos em que não queremos produzir um profissional padronizado, mas onde cada um seja ele próprio. A universidade deve ajudá-lo a desenvolver-se no sentido de se diferenciar e desenvolver o seu potencial. Deixamos de ter um conjunto de competência padronizadas e passámos a querer que cada um seja aquilo que for.

Poderiam ser as universidades e politécnicos a selecçionar os alunos?
Em Portugal? Não. Somos um país demasiado pequeno em que as pessoas se conhecem todas umas às outras e portanto não confio nisso. Frequentemente existe aquela coisa de seleccionar por vocaç&atild

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