Entrevista

António Sampaio da Nóvoa: “Sem professores não há escola pública, e sem escola pública não há democracia”

3 set 2026 07:00

O antigo reitor da Universidade de Lisboa desafia a uma maior autonomia dos professores, que devem ser os autores do seu trabalho e estarem menos ligados a plataformas e aos currículos. Alerta para a preguiça que o uso indiscriminado da inteligência artificial pode causar

António Sampaio da Nóvoa
Ricardo Graça

Ser professor hoje é o tema que irá abordar no Fórum Educação de Leiria. Qual o papel do professor nos tempos actuais?
Pensar a educação e os professores é pensar numa história muito antiga. Há uma permanência no trabalho do professor, desde sempre. Agora, essa permanência tem de se juntar com o que eu designo por metamorfose. Não é inventar nada de novo. É uma forma que evolui. Vivemos uma crise mundial da profissão docente, que se manifesta nas dificuldades de recrutamento em todo o mundo. Estive na Cimeira Mundial dos Professores, em Santiago do Chile, onde se falou muito das questões materiais, das condições de trabalho, da situação das escolas e da violência. Tudo isso está certo, mas há algo mais profundo, que é uma perda de vitalidade dos professores, diria mesmo da sua vida própria. O que hoje me preocupa é afirmar os professores como autores do seu trabalho, e não as plataformas, os manuais, os produtos já feitos. Eles devem ser os autores do trabalho, pois são detentores de um conhecimento próprio. Fala-se muito do conhecimento dos conteúdos, das pedagogias, das ciências da educação. Tudo isso é muito importante, mas nada substitui o conhecimento próprio dos professores. É um conhecimento esquecido. Devem ser autores também no sentido de assumirem a formação dos professores, tanto na formação inicial como na formação contínua.

Que formação precisamos para os futuros professores?
Precisamos, desde logo, de uma formação muito assente na profissão. O processo de transição da formação de professores para as universidades trouxe avanços muito importantes, como a ligação à ciência e ao conhecimento, mas perdeu-se a ligação à profissão. E essa ligação é essencial. Nunca digo prática, porque não é uma questão de prática. A profissão tem uma dimensão prática, teórica, conceptual, ideológica e simbólica. É muito mais do que a prática. Precisamos que a profissão assuma uma responsabilidade maior na formação dos futuros professores. Isso é essencial se quisermos dar uma vida própria à profissão, que se tem vindo a perder nos últimos anos.

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