Viver

Andrzej Kowalski: "vamos juntar-nos, conhecermo-nos e saber quem e quantos somos”

26 out 2018 00:00

Entrevista ao co-organizador do Vias Alternativas - Conversas Sobre o Estado das Artes em Leiria

Jacinto Silva Duro

Foi a percepção de que os criativos de Leiria quase se desconhecem, que levou à ideia de criar o Vias Alternativas - Conversas Sobre o Estado das Artes em Leiria. Colocar as pessoas a falar entre si, parece a coisa mais simples do mundo...
A ideia começou com a vontade de fazer um comentário, há cerca de três anos, sobre a "vida dos artistas de província". Através de várias conversas com os criativos de Leiria, chegámos à conclusão de que não nos conhecemos e que há um número enorme de artistas naturais da região. O documentário ainda não avançou, mas a ideia, que nada tem a ver com a candidatura de Leiria a Capital Europeia da Cultura (CEC), teve a sua génese em Março, quando houve uma polémica com a atribuição de subsídios à cultura. Houve um grande número de pessoas a juntar-se para protestar os critérios da atribuição de dinheiros públicos. Gostei de ver aquela união entre as pessoas da cultura, algo que nem sempre é fácil. Por aqueles dias, perguntei a alguns amigos se já tinham visto artistas a fazer greve. Responderam que não, que isso não era possível. E não é possível porque o tecido cultural é muito atomizado. Nós, os criadores, temos egos de um tamanho razoável e isso impede que nos juntemos a conversar sobre causas comuns. De qualquer modo, ficou no ar a ideia e o Luís Mourão, o Gil Campos e o João Nazário "compraram-na". No dia 27, na Escola Superior de Educação e Ciências Sociais de Leiria, vamos juntar-nos, conhecermo- nos, saber quem e quantos somos e trocar experiências. Se os responsáveis pela candidatura a CEC quiserem aproveitar este evento, que terá várias dezenas de criativos a falar de cultura, seria interessante e lógico.

Ficou então surpreendido com a quantidade de pessoas ligadas à cultura e às artes, que existem apenas no concelho de Leiria?
Fiquei muito. A primeira análise, superficial, deu-nos mais de 120 nomes a trabalhar no sector, actualmente, boa parte deles está fora de Leiria e de Portugal. Porquê tanta "diáspora"? Poderia ser um bom tópico de conversa. Leiria é um berço de criativos e é natural que as pessoas procurem locais onde há maior fruição artística e um público maior. Porém, sei que alguns destes nomes, perante as facilidades que o mundo em rede permite, não se importariam de trabalhar na sua terra-natal e viver do trabalho artístico. Há estratégias que se podem criar para os auxiliar. Se lhes forem dadas condições, os criadores enriquecem socialmente as cidades - Leiria em específico - com um valor que não se traduz em números, mas em potencial de desenvolvimento da sociedade. Há cidades que se gabam do número de criadores que albergam.

O encontro poderá ser uma bola de neve para uma avalancha maior?
Eu e os meus colegas da organização somos muito pragmáticos. O que nos daria uma grande alegria seria chegar ao fim do dia 27 e termos juntado algumas dezenas de pessoas e conseguido reunir as opiniões de cada área de criação artística num manifesto. Mais alegria nos daria, se o encontro permitisse criar uma rede de conhecimento, quer seja por Facebook, email ou telefone, entre os artistas. Não acredito que consigamos já ter uma "avalancha", mas poderíamos criar uma bola de neve e, depois, cada área teria um papel na criação de um boneco de neve. Oxalá que isto se pudesse tornar num debate nacional, mas o nosso objectivo é, acima de tudo, começar e ter, no dia 27, o maior número possível de pessoas a conversar.

Esse manifesto será reivindicativo?
Não é esse o objectivo do documento, embora acredite que haja pessoas com questões a apontar. Haverá um debate dentro de grupos de trabalho por áreas de criação cultural. Mas o objectivo principal é reflectirmos o que precisamos. É perceber o que seria uma cidade que nos permitisse trabalhar, criar e viver da criação artística. É ganharmos consciência de quem somos. Queremos dizer: nós estamos aqui, nós pensamos assim e nós queremos fazer o que acreditamos ser válido para a sociedade. Pode até surgir o apelo para que nos "deixem de chamar subsidio-dependentes", já que não o chamam aos professores, aos empregados da Câmara ou aos jardineiros. Também fazemos serviço público e servimos a população. Não fizemos convites pessoais. Preferimos abrir o encontro a toda a gente e até pessoas de outras cidades. Ainda há dias, convidámos o Teatro Amador de Pombal a vir. Queremos criar uma "consciência de classe", algo que nos una e, depois disso, poderemos propor outras soluções. Na verdade, as únicas pessoas que convidámos, além do professor catedrático João Maria André, que irá falar sobre política cultural fora dos grandes centros, e de Catarina Selada, que abordará o tema da economia e criatividade, foram os representante dos partidos que têm assento na Assembleia da República, para nos dizerem o que cada uma das formações políticas têm a dizer sobre a política cultural fora dos grandes centros de Lisboa e Porto. Vamos ver se alguém dos partidos aparece. Se não aparecerem também será significativo.

"A cultura é como fazer estradas, mas para desenvolver as mentes". É uma ideia que há muito defende e que volta a estar aqui presente.
Completamente. A cultura é educar e é criação artística. Gostava que, no manifesto, em vez de  

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