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Opinião

Mariana Violante Voltar

15:43 - 24 Janeiro 2019
Zépê e a modernidade

Zépê e a modernidade

O zépê não vai ao mercado comprar pão à dona Joaquina e nabiças ao senhor Manel - quem é que tem tempo para isso?

O Zé Povinho é um homem moderno. O Zé Povinho - zépê pra quem o conhece - não precisa de ninguém.

É solteiro, não precisa de namorada. Há muito peixe no mar, e quando elas começam a precisar de muita atenção, parte para outra. Vai ao bar da moda, paga um gin de balão - o mais caro, claro - e pronto, encontrou o amor. Por agora.

O Zé não precisa de mãe nem de sogra para tomar conta dos filhos - foi para isso que se inventaram as babysitters e as creches abertas até às oito da noite. Era o que faltava ter de as aturar a dizer-lhe como educar as crianças. Bem basta o Natal.

O zépê não precisa de mapas nem de parar no café de beira de estrada para perguntar o caminho - o GPS leva-o direitinho até Vilamoura, e pela auto-estrada, que é mais rápido.

Aliás, o zépê já nem faz férias cá no país - o zépê vai à procura do eu interior num retiro de yoga na Tailândia. Não joga à bola com os amigos - vai à box fazer agachamentos e empurrar pneus de tractor na hora que lhe é mais conveniente.

O zépê não vai ao mercado comprar pão à dona Joaquina e nabiças ao senhor Manel - quem é que tem tempo para isso?

O zépê nem sabe quem são os vizinhos - sai de manhã, entra à noite, e paga a uma empresa para não ter que os aturar nas reuniões de condomínio que lhe roubariam horas de trabalho extra que tem para fazer em casa aos fins-desemana. 

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