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'Tabula rasa', a folha em branco que quer ser um grande livro

27 nov 2015 00:00

Festival Literário de Fátima debateu Filosofia e Literatura

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Jacinto Silva Duro

Tabula rasa, a expressão latina que significa folha (de papel) em branco, foi o nome escolhido para o Festival Literário de Fátima, que encerrou no domingo. Dedicado ao debate do papel da Filosofia na Literatura, contou com escritores e convidados das quatro partidas da Terra, onde o idioma de Camões é usado.

A organização foi da Junta de Freguesia local, da revista Nova Águia e do Movimento Internacional Lusófono e teve o apoio dos hoteleiros, da autarquia, de empresas do concelho, da Arquivo Livraria e do JORNAL DE LEIRIA.

Nesta "folha em branco" aberta a novas ideias e à interpretação das menos novas, foi comum ouvir pessoas a debater ideias e a chorar de emoção, e oradores de voz cheia de alegria umas vezes, outras de melancolia, sempre com a língua portuguesa em destaque, nos seus sotaques e matizados, do doce africano e brasileiro ao escorreito e cerebral português. Como se se tratasse de murmúrios de amor trocados entre os pinheiros plantados em areia quente junto ao mar, como descreveu Prado Coelho.

“A língua é o factor que nos une, e esta relação entre literatura e filosofia foi muito interessante de se ver. O público foi outro dos pontos em destaque. Se para os especialistas terá sido interessante, para o público generalista houve conferências mais complexas e outras mais abertas, para as escolas foi igualmente importante.

O festival decorreu em dois dias, no Centro de Estudos de Fátima e Colégio de São Miguel, onde centenas de jovens participaram”, referiu, em balanço, o presidente da Assembleia de Freguesia de Fátima, Eugénio Lucas.

Já Humberto Silva, presidente da Junta de Fátima, preferiu dar destaque ao programa científico criado por Renato Epifânio e a iniciativas como a Casa da Fantasia, dedicada aos mais novos e a “cada momento de intervenção cultural, vestindo as mais diversas roupagens, cada intervenção, cada melodia, cada palavra, cada gesto, todos eles substantivos.

Tudo isto produzido pelo mundo maravilhoso e encantador dos livros e das ideias que os sustentam”. A sessão de encerramento que decorreu no Hotel de Santa Maria serviu também para entregar os vários prémios literários desta edição com destaque o Prémio Poesia, vencido por Nuno Júdice (O Fruto da Gramática, Dom Quixote, 2014 ), e para homenagear um dos maiores ensaístas e pensadores portugueses, Eduardo Lourenço, com o Prémio Vida e Obra.

Para Moita Flores, o Tabula Rasa é um festival realizado à volta do “maior activo que Portugal” entregou à Humanidade, a língua falada por 350 milhões de pessoas – 200 milhões no Brasil e 150 milhões em Portugal e no resto do mundo.

“Neste quadro, a voz e a escrita de Eduardo Lourenço tem marcado a última metade da centúria, com livros extraordinários que lhe saíram, como Heterodoxia I, estudos de Pessoa, os estudos sobre Eugénio de Andrade e o Labirinto da Saudade, que é uma pérola e o maior ensaio escrito no século XX sobre nós ”, sublinhou.

Eduardo Lourenço,”náufrago do pensar”.
O escritor Miguel Real ficou com o ónus de fazer a justificação do galardão. “O que fez Eduardo Lourenço ao longo de 92 anos? Deu sentido à sua existência. E isto é muito importante. Se olharmos para nós próprios percebemos que é muito difícil dar sentido à nossa existência.

A nossa existência está, pós-modernamente, em autênticos cacos. A nossa existência são fragmentos, não possui uma unidade articulada. Mas, de década a década, vamos tentando construir essa unidade. Como foi que Eduardo Lourenço deu sentido à sua existência?

Através da Filosofia, não dando uma dogmática ou um sistema filosófico para ser consumido, mas pegando numa palavra e indo até ao infinito com ela. O que só prova que o importante é pensar, pensar, pensar.

E pensar é a mais perigosa das vocações, porque, para pensar, só há cais de partida, nunca cais de chegada… e há um máximo perigo: não há GPS que nos oriente. E para pessoas como Eduardo Lourenço, não há o que nos transporte. Não há barca ou avião que nos leve a lado algum.

Porque a barca é feita de pedaços do neo-realismo e do positivismo, de algum psicanalismo social. A barca é uma jangada que Eduardo Lourenço vai construindo com um tronco de positivismo, outro de neo-realismo, outro de estruturalismo. Atravessou a sua vida entre ondas alterosas do pensar, sem vela, nem remos, à semelhança de Vieira, Pessoa e Agostinho da Silva.

Foi toda a sua vida um náufrago do pensar. A solução para um náufrago do pensar? A cada década, construir uma jangada maior.” O autor disse ainda que Eduardo Lourenço pautou a sua existência pela lucidez de não se deixar fechar dentro de ideologia alguma, pela “humildade”, palavra que Miguel Real admitiu saber que Eduardo Lourenço não iria gostar, e por ser um espelho.

“Praticou uma forma de pensamento que não existe em Portugal. Apenas escreveu um livro completo, Pessoa Revisitado, publicado em 1973. Todos os seus livros possuem uma unidade fundamental e são constituídos por inúmeros artigos e reflexões pessoais, que Lourenço depois organiza e elabora um título único.

É um pensamento que “morre” em cada livro, porque não lhe podemos atribuir um 'ismo. Não é neo-positivista, não é estruturalista, não é existencialista, não é psicanalista… é um pensamento que morre em cada livro para renascer, exactamente o mesmo, mas sob outra máscara, no livro seguinte.”

A cada título, nasce mais um livro onde ambiciona captar a verdade, mas Lourenço sabe que jamais o conseguirá fazer, pois capta apenas o véu, sob o qual a verdade se esconde. Miguel Real conclui que Eduardo Lourenço é “o espelho de um Portugal saído da Segunda Guerra Mundial e da grande ambição social e história do País”, explicando que a característica reflectiva se deve ao facto de não conseguirmos hoje pensar Portugal sem a Heterodoxia I, que dá nome a uma das suas obras grandes, e que é “tão heterodoxa que não se pode converter em 'ismo'” – pois não pode existir heterodoxismo.

“A liberdade tem um valor máximo, como categoria social e ética da segunda metade do século XX e, mais tarde, do irrealismo prodigioso dos portugueses, pelo qual nos vemos 'ao espelho fantasmático da nossa imagologia', como se refere no Labirinto da Saudade.”

Real terminou com uma provocação alicerçada no pensamento de Loureço: pensamos que somos mais superiores... tão mais superiores quanto somos realmente inferiores. “Somos tão complexados, quanto nos pensamos pioneiros e empreendedores. Quanto mais nos falarem de empreendedorismo, mais não o seremos."

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