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Saiu-te a Bota Botilde na Farinha Amparo?! (com fotogaleria)

21 fev 2019 00:00

Memória | Um pedido online do Museu de Leiria por uma Bota Botilde, avivou-nos na memória que foi a Plásticos Edmar, de Leiria, a fabricar a famosa mascote do concurso "1 2 3".

Bota Botilde (Foto: Museu do Brinquedo de Ponte de LIma)
Triciclo Plastidom (Foto: Museu de Leiria)
Triciclo Plastidom (Foto: Museu de Leiria)
Triciclo Plastidom (Foto: Museu de Leiria)
Xilofone Plasgal (Foto: Museu de Leiria)
Xilofone Plasgal (Foto: Museu de Leiria)
Xilofone Plasgal (Foto: Museu de Leiria)
Cama Plásticos Lena (Foto: Museu de Leiria)
Cama Plásticos Lena (Foto: Museu de Leiria)
Cama Plásticos Lena (Foto: Museu de Leiria)
Tanque Plásticos Santo António (Foto: Museu de Leiria)
Tanque Plásticos Santo António (Foto: Museu de Leiria)
Tanque Plásticos Santo António (Foto: Museu de Leiria)
Jacinto Silva Duro

Esta e outras unidades industriais da região fabricaram centenas de brinquedos. Mas sabia que a história da Botilde teve origem na Farinha Amparo?

Entre 1982 e 1984, a fábrica Plásticos Edmar, de Leiria, actual Planeta Plásticos, contribuiu para levar sorrisos às crianças portuguesas ao produzir milhares de Botas Botilde. A par da popularidade do concurso 1 2 3 da RTP, a mascote, uma bota velha de redondos óculos e sola rota, que servia como boca, era usada em porta-chaves e como parte de um brinquedo que consistia num aro por onde se enfiava o tornozelo, ligado por uma vara de plástico a uma Botilde, também de plástico.

O conjunto permitia saltar ao mesmo tempo que se rodava o brinquedo à volta do corpo. O objectivo era fazer o máximo número de saltos, sem bater na bota ou na vara de plástico. Enquanto a febre do 1 2 3 durou, os recreios de norte a sul do País encheram-se de campeões do novo desporto.

Depois disso, a Botilde ficou esquecida no fundo do baú colectivo da memória das crianças do início dos anos 80. Na semana passada, o Museu de Leiria lançou um repto online, em busca de uma Bota Botilde para a sua colecção de brinquedos de plástico produzidos na região.
 

Nostalgia e orgulho
Espanhóis responderam ao apelo de Leiria


Assim que o Museu de Leiria comunicou online que procurava uma Botilde, os serviços do espaço cultural obtiveram a resposta imediata de duas dezenas pessoas, dispostas a emprestar as que guardavam em casa.

Houve ainda quem contribuísse com informações e memórias pessoais relacionadas com a produção do artigo e com o seu uso lúdico. Foram até registadas propostas de Espanha, onde a bota surgiu em primeiro lugar.

Os serviços atribuem a resposta, por um lado à “nostalgia da infância” e, por outro, ao orgulho com que muitas pessoas, ligadas à produção da bota, falaram dos vários processos do fabrico.

 

Afinal, o famoso brinquedo tinha o dedo de Leiria e vamos poder ver a bota, juntamente com centenas de outros produtos em plástico e que são parte da história do século XX, em exposição a partir de 6 de Abril, na mostra PlastiCidade - Uma História do Plástico em Portugal

As respostas de orgulhosos proprietários de botas não se fizeram esperar. O mais curioso, porém, é que a história da Botilde começou com outro produto famoso, a Farinha Amparo. A expressão popular, semi-insulto, “saiu-te a carta na Farinha Amparo!” serve, ainda hoje, para atirar a quem dá sinais de, na estrada, não ser um às do volante. É quase um sinónimo de se ter sido bafejado pela sorte sem se saber bem nem como nem porquê. Mas como surgiu a expressão?

Esta história também tem um dedo de Leiria e dos seus empreendedores. A Farinha Amparo foi comercializada até à década 80 e era popular pelos brindes que se encontravam no interior da embalagem; pequenos brinquedos que poderiam ser cartões de futebol, índios e cowboys, cães, ursos e outras pequenas figuras em plástico.

“Criei a Edmar a 1 de Junho de 1956 e a primeira coisa que produzimos foi um brinquedo para a Farinha Amparo”, recorda o fundador da Plásticos Edmar, Eduardo Maria Augusto da Silva, que emprestou parte do seu nome à marca.

A Botilde foi apenas um das centenas de produtos, entre botas, artigos em melamina e plástico, que viram a luz do dia a partir de quatro sectores de produção da empresa, mas, no início da actividade, os brinquedos eram um dos principais sustentos da Edmar.

“Pediam-me que lhes ‘arranjasse’ uma Botilde”
Os colaboradores dos anos 80 na Edmar recordam com carinho a bota rota e de ar cansado que era um dos prémios finais do concurso 1 2 3 e que ninguém queria. Por motivos óbvios, o que todos os participantes desejavam era o carro novo.

Os mais azarados levavam, para casa, a Botilde, camiões de areia e automóveis... tirados do ferro-velho. Carlos Castaño foi chefe de produção na Plásticos Edmar e recorda bem a azáfama dos tempos em que se fabricavam as Botildes.

“A popularidade era tal que, quem sabia que eu era chefe de produção, pedia-me que ‘arranjasse’ uma Botilde, mas era-me interdito vender ou sequer doar um exemplar do brinquedo”, conta.

Os filhos de Castaño brincaram com o popular brinquedo, mas o chefe de produção da Edmar teve de o comprar numa loja, como qualquer outra pessoa. “Acredito que toda a gente da fábrica experimentou uma Bota Botilde”, conta e adianta que era motivo de orgulho participar naquele projecto tão popular.

“Admito que me sentia orgulhoso pela popularidade e por ver o nosso produto em todo o lado”, recorda o antigo proprietário Eduardo Maria, adiantando que não sabe precisar se os números de produção foram de milhares ou se chegaram aos milhões.

“Muitos amigos pediam-me Botildes, mas, devido ao contrato com o Carlos Cruz, não podia oferecer-lhes nenhuma.”

Leiria no caminho da Botilde
O concurso televisivo 1 2 3 teve início em Espanha e o apresentador Carlos Cruz conseguiu que a RTP, à época único operador televisivo em Portugal, com apenas dois canais, comprasse os direitos para Portugal.

O programa passou a ser transmitido nos serões de sábado, reunindo as famílias em torno da televisão. Nele foram lançados vários artistas que se tornaram celebridades como Carlos Cunha – no papel de Zé da Viúva -, Marina Mota, esposa de Cunha, na época, e que protagonizava no concurso a mulher do Zé da Viúva, o Fininho (Carlos Miguel) e Fernando Mendes.

O País parava para assistir e para saber se os concorrentes conseguiam, na final, levar para casa um carro, o prémio mais cobiçado… ou o dinheiro, em vários maços de notas de cinco contos.

Mas como foi que a produção da primeira e popular mascote do programa, a Bota Botilde, foi parar a Leiria? “A minha filha, Lina Maria, conheceu o Carlos Cruz em Lisboa e ele sabia que tínhamos a fábrica Plásticos Edmar e perguntou se estaríamos interessados em produzi-la”, recorda o empresário.

Após o pico de popularidade e ainda durante o percurso televisivo do concurso, a Botilde vestiu as pantufas e foi reformada, tendo sido substituída pelo Zé Sempre em Pé, uma mascote que jamais alcançou a mesma popularidade, obrigando ao regresso da popular bota míope e de sola rota.

Brinquedo foi uma das alavancas da indústria dos plásticos
 

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