Desporto

Os Carapaus do Lis e a centelha que o tempo não deixou esfumar

3 mai 2018 00:00

Há 27 anos irradiavam entusiasmo pelos estádios do País, mas agora, mais calmos, casados, pais de família, só querem rir-se com a bola e ver a União de Leiria subir de divisão.

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Foi no dia 5 de Maio de 1991, há precisamente 27 anos, que uma rapaziada de Leiria resolveu invadir Coimbra. Porquê? Aquele fim-de-semana, naquela cidade, prometia tudo de bom. Decorria a Queima das Fitas e estava marcado um jogo de futebol que opunha a Académica e a União, a contar para a 2.ª Divisão de futebol.

Entre uma coisa e outra ficaram numa modesta pensão. Uns aproveitaram para dormir, outros nem por isso, mas na manhã de domingo levaram os lençóis. Como na semana anterior a Briosa tinha sido goleada, resolveram escrever nos panos “obrigado Freamunde”. “Éramos um bocado radicais para a altura”, admite Miguel Gripa.

Foi o prelúdio de uma grande rivalidade, mas também o princípio dos... Carapaus do Lis. O nome é surpreendente, mas as motivações que levaram à escolha esfumaram-se com o passar dos anos. Depois, muitos dos elementos afastaram-se da União de Leiria durante os anos rocambolescos que fizeram a equipa cair nos distritais.

No entanto, no instante mais difícil, na altura do regresso aos pelados e de mostrar o orgulho pelo castelo, lá voltaram eles, já entrados nos quarenta, para não deixar cair o símbolo que fazem questão de levar ao peito para todos os jogos. “Não somos uma claque. Somos um grupo (des)organizado da velha guarda que sente uma enorme paixão pelo clube”, diz Luís Gonçalves, universalmente conhecido por Botas.

“Há 27 anos estávamos no final da adolescência, naquela fase de irreverência normal dos 17, 18 e 19 anos, íamos com a União de Leiria a todo o lado. Quando caiu no fundo, há cinco ou seis anos, voltámos a aparecer em força”, completa Rui Seco.

Os Carapaus do Lis estão presentes em todos os jogos. Tanto em casa como fora. “Alguém há-de ir”, diz Hugo Sousa. “Aos Açores fui eu e a minha mulher, mas o nosso pano estava lá”, exclama Luís Gonçalves.

Já foram a pé a Fátima e já acamparam ao lado do campo, na Ortigosa. As viagens são uma alegria e há sempre histórias para contar. “Temos uma certa idade. Saímos cedo, estamos bem alimentados e não podemos estar desidratados”, diz Nuno Violante.

Mais importante, contudo, é aproveitar estas ocasiões para fazer amigos, porque o tempo da pirraça aos adversários ficou nos anos 90 do século passado. “Se nos provocam respondemos”, diz Pedro Rodrigues. No entanto, não querem saber de porrada. “E se os putos se metem em confusão vamos lá buscá-los.”

Se nos jogos fora há festa, em casa também. Muitas vezes juntam-se ao almoço e se não o fazem juntam-se uma hora antes da partida. “O estágio é sempre no Lagoa”, sublinha Miguel Gripa. Este domingo, contudo, o plano tem algumas ligeiras alterações.

É que para comemorar o 27.º aniversário do grupo (des)organizado de amigos, composto por mais de duas dezenas de unionistas, todos acima dos quarenta, haverá uma deliciosa sopa da pedra na tasquinha do clube, na Feira de Maio.

Depois, com as vozes aquecidas, irão apoiar o emblema do castelo em mais uma jornada decisiva rumo à 2.ª Liga de futebol. Pelas 16 horas, a União de Leiria joga com o Lusitano de Vildemoinhos para a primeira mão dos quartos-de-final do playoff .

“Acho que vamos ser felizes”, diz Luís Gonçalves. “O sorteio é favorável. Este anos sobe-se. Nem pode ser de outra maneira.”, confirma Hugo Sousa. “Pela primeira vez nestes anos todos vejo a equipa a jogar à bola. E foi desde que chegou o Rui Amorim!”

Ainda assim, nada de embandeirar em arco. “Este jogo é muito importante”, adverte Nuno Violante. “Temos de ganhar bem em casa, sem sofrer golos, porque lá é complicado. O campo é pequenino, eles são muito aguerridos. É uma equipa muito chata e se vamos para lá tremidos vai ser complicado.”

Para a visita a Viseu, os Carapaus do Lis já têm um autocarro cheio. “É para o pessoal de idade. A claque vai noutro.” E a família, como vê esta paixão? “Há alguns que ganham créditos noutras alturas para poderem ir à bola ao domingo, mas há vícios bem piores. Antes na bola do que na farmácia ou no casino”, diz Rui Seco.

E se a União de Leiria subir? “Não sei como vamos fazer na 2.ª Liga, com jogos ao domingo e à quarta-feira. Adivinham-se divórcios e despedimentos.”

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