Desporto

Manuel Sérgio: “É mais importante uma lágrima humana do que todas as taças do Mundo”

3 dez 2009 00:00

Manuel Sérgio, criador da ciência da Motricidade Humana, salienta que para se ser treinador é preciso perceber a complexidade das actividades humanas. “Físico, só, não chega.”

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Foi o criador da ciência da Motricidade Humana. O que nos diz essa ciência?

A área do desporto, da dança, da reabilitação não é uma área de físicos, mas de pessoas em movimento intencional. Tenho a certeza que esta minha tese foi precursora de muita coisa que se veio a passar a nível do treino. Mas como sou filósofo, modesto, mas sou, apenas forneci os princípios à prática, mas não disse como aplicá-los. Isso fez José Mourinho. Antigamente acentuava-se a parte física e eu, há mais de 30 anos, comecei a dizer que no treino o físico não era tudo. A parte psicológica, moral, também tinha de entrar. Era necessário aplicar o método da complexidade. Senti a necessidade de criar uma nova metodologia de treino onde tudo estivesse presente.

Seria uma forma de ir ao encontro do que se passa no jogo...

Absolutamente, embora no jogo a ciência dominante seja a do caos. O mal dos cursos é que se estuda um bocado de psicologia, um bocado de fisiologia, um bocado de bioquímica, mas o jogo começa e nada daquilo aparece separado, é tudo junto.

José Mourinho não pára de salientar a importância que o Professor teve no seu trajecto...

Foi meu aluno, ouviu-me a falar destas coisas e, a partir do que eu disse, fez coisas que eu não conseguiria fazer, nem sei como o faz. É engraçado que quando foi meu aluno, José Mourinho já me dizia que não acreditava nos métodos só físicos. Comecei a falar-lhe na complexidade. Há uma coisa que ele diz que me ouvia falar nas aulas. Para um indivíduo aprender a tocar piano não anda às voltas do piano, senta-se e toca.

O que é preciso para se ser um grande treinador?

O problema não está no que se sabe, o problema está no que se é. Quem triunfa, no treinador, é o homem, não é o muito saber. Um indivíduo que saiba muito, mas que não seja corajoso, escusa de ir para a alta competição, porque já perdeu. Há três grandes qualidade que o treinador tem de ter: ser líder, ter boa leitura de jogo e saber comunicar para motivar. Quem não tem estas três qualidades, por mais que saiba, não consegue ser treinador. O grande falhanço de alguns professores de Educação Física é que julgam que para serem treinadores lhes basta saber fisiologia. Podem até nem saber pouco – não digo nada porque sou universitário e fica mal afirmar isso – mas o fundamental é a personalidade. É o homem que se é que triunfa no treinador que se pode ser e o resto são tretas. Um treinador tem de ser um homem muito completo, porque tem de tornar coerente um grupo feito de personalidades muito diferentes. Em Maradona e Garrincha, por exemplo, havia aquela malandragem típica dos estratos sociais mais pobres, para fugir da polícia ou dos pais, e criaram neles aquele sentido de fuga que o Kaká, por exemplo, filho de um engenheiro, nunca precisou.

José Mourinho tem, definitivamente, estas três qualidades...

O Mourinho tem, o Jorge Jesus também tem. Creio que só tem a instrução primária, mas possui estas três qualidades, o que lhe permite ser um bom treinador.

O que distingue Mourinho de Jesus?

É a cultura. O Mourinho é um homem que lê. Jesus é muito interessado e não pára de ver futebol. É, também, um homem de grande curiosidade, que merece sorte.

Almoça muitas vezes com Jorge Jesus. De que falam?

Não falamos de futebol, porque eu não ensino futebol a ninguém. Ele pergunta-me muitas vezes o seguinte: “Professor, por vezes tenho dúvidas se os meus métodos de treino estão errados, o que é que eu hei-de-fazer?” Então, fui buscar o livro Contra o método, de Paul Feyerabend, um grande nome da filosofia das ciências, em que ele diz que tudo o que resulta está certo. Por exemplo, um médico cura um doente com um remédio que mais ninguém usa. É porque está bem!

Disse que no staff de uma equipa de futebol devia haver um filósofo. Quais seriam as suas funções?

O filósofo é um homem que tem uma formação de unir. Seria o homem capaz de ter uma visita de conjunto, de reflectir, porque o filósofo vai à raiz das coisas. À pergunta filosófica subjaz uma rejeição daquilo que não é verdadeiro, do aparente. O essencial, nos dias de hoje, não se capta. O filósofo é o homem que pára e diz: vamos pensar. Num mundo como o do futebol, que é um espaço de grande irracionalidade, o filósofo, um que saiba de futebol, faz falta.

Mourinho diz que o melhor psicólogo dos jogadores é o treinador...

O melhor psicólogo do jogador é mesmo o treinador, é indiscutível. O psicólogo será só preciso em casos extremos.

Em que medida o desporto conduz à superação humana?

O desporto é competição. Se é competição empurra para a transcendência. O problema é que neste Mundo tudo é instrumental em relação ao ser humano. Superação? É evidente, só que tem de se respeitar a saúde, a vontade e os valores do atleta. É mais importante uma lágrima humana do que todas as taças do Mundo.

Estamos perto do limite do ser humano ou vamos continuar a quebrar barreiras?

Hoje o ser humano já não é ele só. É ele mais as próteses que lhe acrescentam. O ser humano, com essas próteses, é capaz de ir além do que consegue hoje, agora até onde... O ser humano é um ser de limites, mas o progresso ainda se não viu até onde pode chegar. Todo o material é hoje melhor e permite que se chegue mais alto e mais depressa.

A Educação Física enquanto disciplina ainda vive hoje com o erro de trabalhar separadamente o corpo e a mente?

Só depois de Descartes, do “erro de Descartes” é que surgiu a Educação Física. Nasceu mesmo para a educação do físico, mas os professores de hoje sabem perfeitamente que o ser humano é físico, mas não só. As pessoas desconhecem uma coisa. A criação do vocabulário científico é um dos momentos da investigação científica. E se agora, de facto, já não se educam físicos, mas pessoas, acho que a expressão Educação Física está errada.

Qual é o papel do futebol na sociedade?

O futebol tem de ser aquilo que muitas vezes não é: contrapoder ao poder das taras dominantes. As pessoas gostam de futebol. Logo, este deve distinguir-se pela não violência, pela pacificação dos espíritos, pelos princípios da solidariedade e de fraternidade, pelo respeito pelos adversários e por nós próprios. Temos de considerar o adversário aquele amigo que nos proporciona a prática do desporto.

E papel político, pode ter?

O futebol pode adormecer as pessoas à recusa da sociedade injusta estabelecida, assim como pode aumentar o orgulho nacional. Pode uma coisa e outra.

 

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