Economia

Indústria vê fim dos descartáveis como desafio para desenvolver produtos plásticos mais ecológicos

5 abr 2019 00:00

A partir de 2021 serão proibidos produtos de plástico descartáveis como pratos, talheres, palhinhas e alguns recipientes para alimentos e bebidas

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Raquel de Sousa Silva

“Quando as dificuldades surgem, as empresas reagem e modernizam-se”. Amaro Reis, presidente da Associação Portuguesa da Indústria dos Plásticos (APIP), admite que a proibição do uso de alguns artigos de plástico descartáveis já em 2021, aprovada na semana passada pelo Parlamento Europeu, vai ter impactos na indústria, mas acredita que as empresas irão fazer um “upgrade tecnológico”, apostando em novos produtos, mais ecológicos e em consonância com as tendências do mercado.

“A indústria encara esta situação como um desafio para a produção de produtos reutilizáveis em plástico, fomentando o uso de novos materiais com o apoio do meio académico no desenvolvimento de embalagens mais ecológicas, desde o material ao design”, frisa o empresário de Leiria.

“Claro que estas medidas preocupam a indústria, mas sabemos que dispomos de um material único, 100% reciclável, que tem o melhor desempenho em termos de economia circular”, diz gestor, frisando que é preciso melhor os circuitos de recolha.

“Não pode ser como há 20 anos. Tem de se apostar na recolha porta-a-porta, para podermos ter melhores reciclados, que possam ser usados em mais produtos”.

“Não podemos substituir um produto de plástico por outro material só porque sim, temos de acautelar que o seu substituto não tenha uma pegada de carbono superior, ou que não seja reciclável, mesmo parecendo aos olhos das pessoas que o é”, afirma o presidente da APIP.

A título de exemplo, aponta o copo para bebidas. “Sendo em papel, tem de levar uma membrana de plástico no interior. Ora, isto dificulta ou inviabiliza mesmo a sua reciclagem, porque se juntam dois materiais, o que significa que acabará no aterro”.

O dirigente lembra ainda que, na era da economia circular, “não existe nenhum material com a potencialidade do plástico na sua reutilização e reciclagem, dando vida a novos produtos no seu fim de vida”.

Pratos, talheres, cotonetes, palhinhas, produtos de plásticos oxodegradáveis e recipientes para alimentos e bebidas de poliestireno expandido (vulgarmente chamado esferovite) para os quais existem alternativas são alguns dos produtos cujo uso será proibido a partir de 2021, na sequência da aprovação, na semana passada, pelo Parlamento Europeu, da nova directiva comunitária.

A norma, que o governo português quer antecipar em pelo menos meio ano, estabelece também que os Estados-membros tomem medidas para alcançar uma redução quantitativa de outros produtos de plástico de utilização única, como recipientes para alimentos e copos de plástico para bebidas, incluindo as respectivas coberturas e tampas.

Estão ainda previstas outras metas de recolha selectiva e reciclagem num horizonte temporal até 2029.

“Por trás da medida haverá uma preocupação mais fiscal do que ambiental, porque pode abrir portas a que os governos lancem mais impostos verdes”, comenta Pedro Colaço, anterior presidente da APIP.

Segundo a Lusa, os produtos de plástico descartáveis e as artes de pesca abrangidos pela directiva representam cerca de 70% do lixo marítimo. Amaro Reis lembra que a Europa representa apenas 0,9% dele e entende que se nada for feito noutras zonas do globo o problema irá manter-se.

“É necessário que, de uma vez por todas, os políticos percebam que o problema é comportamental e não do material”. Por isso, entende que o problema “continuará”, desta vez com “outros produtos descartáveis”.

O mesmo defende Paulo Almeida. O director-geral da Plasgal lamenta que, mais uma vez, e à semelhança do que aconteceu quando foram proibidos os sacos leves, que a empresa de Leiria fabricava, se esteja a agir sobre produtos e não sobre comportamentos.

Mas frisa que “a indústria está disponível para abandonar produtos nos quais se comprove que existem alternativas mais sustentáveis”. No caso dos artigos agora em causa, entende que nem sempre assim é.

O gestor acredita que as empresas que produzem os artigos descartáveis alvo da directiva irão “ajustar-se” à nova realidade, mas admite que haverá impactos, “tal como há sempre que tem de haver mudanças”. No caso da Plasgal, teve de se reposicionar, abandonando a produção de sacos leves e passando a apostar em embalagens para a indústria.

Reconversão poderá vir a ser igualmente a palavra de ordem para alguns fabricantes de sacos, se a tendência se generalizar. Esta terça-feira, o Continente anunciou que “quer acabar com os sacos de plástico para frutas e legumes”.

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