Economia

Economia está a criar empregos, mas salários continuam estagnados

19 abr 2019 00:00

Nos últimos anos, a economia portuguesa recuperou boa parte dos postos de trabalho destruídos durante a crise, embora tenha mudado “substancialmente” a estrutura do emprego. Já os salários reais médios “mantêm-se praticamente estagnados” desde 2012

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Raquel de Sousa Silva

Há duas décadas, os recém licenciados entravam no mercado de trabalho a ganhar, em média, mil euros. Hoje, os jovens com esse nível de formação iniciam a vida profissional com ordenados pouco acima do salário mínimo.

O economista Eduardo Louro aponta este exemplo para ilustrar uma tendência da economia portuguesa que se acentuou depois da crise: o “profundo ajustamento” dos salários.

Passada a intervenção da troika, a economia voltou a criar empregos, mas estes foram ocupados sobretudo por pessoas mais jovens, com ordenados mais baixos, e não pelos que ficaram desempregados, cujos salários eram, em média, mais elevados.

Depois da crise “ficou um ajustamento mental” que aceita ordenados mais baixos, explica Eduardo Louro, que contextualiza a questão na “dimensão macro da distribuição de rendimentos”, que considera “catastrófica”.

Exemplifica com os dados dos Relatórios e Contas de algumas das grandes empresas nacionais, que revelam que os gestores ganham actualmente 52 vezes mais do que os trabalhadores dessas empresas. Em 2014 essa diferença era de 33.

O economista de Alcobaça aponta ainda outro dado, que considera ser o que “mais pesa” para o que se está a passar com os salários.

“A economia tem comportamentos racionais. E a economia portuguesa não consegue conviver com uma moeda forte, como é o euro. Sem moeda para desvalorizar, desvaloriza os salários para mascarar a sua competitividade”. Ou seja, “os salários estão a pagar o euro”, considera o profissional.

Os últimos dados do Eurostat, divulgados na semana passada, dão conta que Portugal foi um dos quatro países onde no ano passado menos subiu o custo horário da mão-de-obra.

O aumento foi de 1,4%, de 14 para 14,2 euros, quando na zona euro o aumento foi de 2,7%. A média do custo horário da mão-de-obra nos países da moeda única foi de 30,6 euros.

As empresas portuguesas não podem, ou não querem, pagar mais? António Poças, presidente da Nerlei, afirma a sua convicção de que a maioria não paga mais porque não pode.

“Não nos podemos esquecer que nos últimos anos temos vivido tempos de expansão económica, mas os especialistas já começam a alertar para o aproximar de nova crise. As empresas acabam por viver num clima de incerteza que as torna mais prudentes quando se trata de contratações e investimentos”.

Por que é que os salários não sobem mais, se o desemprego continua a cair? “Só podem subir quando a produtividade das empresas e da economia cresce. Há sectores onde os salários subiram, porque são sectores onde os níveis de produtividade, por via da modernização, se elevaram. Mas temos outros sectores onde esse aumento não tem sido possível”, explica o dirigente.

De acordo com última edição do Barómetro das Crises, do Centro de Estudos Sociais (CES) de Lisboa, entre o segundo trimestre de 2013 e o mesmo período do ano passado a economia portuguesa recuperou 450 mil dos 700 mil empregos destruídos nos cinco anos anteriores.

“No entanto, os salários reais médios mantêm-se praticamente estagnados desde 2012”, situando-se, até, “abaixo dos patamares do início do milénio”.

O que explica esta situação? No período em análise, a estrutura do emprego, a distribuição por escalões etários e ramos de actividade económica “alterou-se substancialmente”.

E isso ajuda a perceber, “pelo menos em parte”, a estagnação dos salários, aponta o barómetro. “Os ramos que criaram mais emprego foram precisamente aqueles onde se pagaram salários abaixo da média nacional”. Já a destruição de emprego aconteceu em sectores onde se pagava acima da média.

Actividades de emprego (empresas de trabalho temporário e de selecção de pessoal), restauração, comércio a retalho e alojamento foram as áreas onde mais empregos foram criados nos últimos anos, segundo o estudo do CES, mas todos eles praticam remunerações “abaixo da média”.

Por outro lado, um ramo onde se verificou destruição de emprego – engenharia civil – tendia a praticar ordenados superiores à média da economia.

António Poças vê com “alguma apreensão” os dados do Eurostat e do Barómetro das Crises, por se perceber que “não conseguimos que os salários reais cresçam”. O que significa que, “apesar de termos melhorado, não melhorámos tanto quanto seria desejável”.

O presidente da Nerlei lembra ainda que os postos de trabalho criados após a crise “exigem competências distintas dos que foram destruídos e não houve capacidade de fazer a conversão necessária”.

Por outro lado, “os custos indirectos do trabalho, como os meios de transporte disponíveis no País, o tempo despendido no acesso à saúde e demais serviços públicos, deficientes serviços de apoio familiar (numa sociedade mais envelhecida em que população activa tem de cuidar dos seniores) leva a quebras de produtividad

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