Opinião
Paulo José Costa: O Efeito Avestruz
Se as aprendizagens dos jovens continuam a degradar-se, algo está profundamente desalinhado entre a forma como as escolas ensinam e a forma como as novas gerações aprendem.
O “Efeito Avestruz” na economia comportamental é o viés cognitivo em que indivíduos evitam activamente informações psicológicas negativas, preferindo “enterrar a cabeça na areia”, a enfrentar dados desfavoráveis. É a tendência para evitar realidades desagradáveis ou incertas. Tornou-se uma ameaça silenciosa num mundo de rápidos avanços tecnológicos. Embora a analogia da avestruz não seja cientificamente precisa, capta a atitude de muitos indivíduos e organizações em relação à disseminação da Inteligência Artificial.
A propósito dos dados do relatório PISA - Programa Internacional de Avaliação de Alunos, agora revelados, um em cada cinco alunos de 15 anos tem fraco desempenho em três literacias fundamentais: Ciências, Matemática e Leitura. A queda na aprendizagem não é nova, mas torna-se cada vez mais evidente numa amostra de 760 mil estudantes em 91 países.
É um problema global e leva inevitavelmente à pergunta: porque estão tantos sistemas educativos a colapsar? A pandemia não explica sozinha este declínio. E a IA é demasiado recente para explicar uma tendência já existente. Se as aprendizagens dos jovens continuam a degradar-se, algo está profundamente desalinhado entre a forma como as escolas ensinam e a forma como as novas gerações aprendem.
Não é preciso ser especialista para perceber que reverter a tendência exigirá sistemas educativos hábeis em integrar as novas tecnologias de forma estruturada e rigorosa. O problema já não passa por saber se a escola deve usar IA. A escola já a usa! Terão os decisores políticos conhecimento suficiente sobre esta tecnologia imoral para decidir como, onde, quando e para quê usá-la? Talvez a equação contemple um misto de exigência académica, autonomia das escolas, formação de professores e cultura digital, contribuindo para enfrentar desafios complexos relacionados com concentração, distracções digitais e declínio da literacia em leitura.
As maiores dificuldades surgem em tarefas que exigem competências cognitivas avançadas, como a reflexão crítica, a capacidade de memorizar e integrar informação. Os alunos leem «pela rama» os textos e respondem de forma precipitada, sem interpretar, errando a resposta. A limitação da leitura por prazer, a transição para formas de leitura digital, marcadas pelo consumo rápido de conteúdos multimédia e navegação em redes sociais, enfraquecem e degradam estas competências.
Se nos concentrarmos na questão tecnológica, é importante recordar que poucos países permitiriam que milhões de crianças recebessem uma nova vacina, sem primeiro exigir ensaios clínicos rigorosos. Ora, muitos países introduziram novas tecnologias em milhões de salas de aula com muito pouca evidência sobre o seu impacto, transformando os alunos em cobaias de ferramentas que ainda não conhecemos totalmente.
A tecnologia tem lugar na escola, mas precisa de regulamentação e enquadramento urgentes. E não esqueçamos que o ensino e aprendizagem se realizam com base na empatia e comunicação professor-aluno, pelo que introduzir momentos diários de leitura aprofundada, ensinando técnicas de concentração e leitura longa, incorporando exercícios de verificação de factos e combate à desinformação, são apenas algumas estratégias de mitigação do problema.