Opinião

Os donos disto tudo

27 mai 2026 10:54

Há gente a alimentar pombos com o mesmo tom de voz que se usa junto à incubadora de um prematuro.

Tenho fobia a aves. E gostava que as pessoas parassem de lhe chamar medo irracional, porque irracional foi haver adultos a passar noites ao relento por um revivalismo pop do relógio de bolso.

Não sei exactamente onde começou esta fobia. Mas também fiz a infância entre o Jardim da Parada e o Jardim da Estrela, que é o equivalente lisboeta a crescer no Vietname, nos anos 60. Há quem cresça com cães. Eu cresci com aquela tensão permanente de quem sabe que, mais cedo ou mais tarde, um bicho langanhento vai mergulhar na direcção do bolo de arroz com a fúria de um Phantom II.

Ainda assim, o pior destes bichos nem é serem viciados em açúcar. O pior é a familiaridade. As aves vivem entre nós com uma confiança completamente despropositada. Um pombo atravessa uma praça sem se desviar de ninguém, como se tivesse sido ele a calcetar a calçada portuguesa com o próprio bico.

E ninguém estranha isto.

Há animais que ainda conservam alguma distância digna. O pombo não. O pombo quer fazer parte da cidade. Mais duas gerações e tem dístico.

E tão triste como a sua progressão territorial é a minha solidão neste tema, porque ninguém parece particularmente incomodado senão eu.

Daí ter ficado tão contente, no outro dia, quando vi uma senhora a enxotar um pombo com uma esfregona. Finalmente, alguém do meu lado da trincheira. Sorri-lhe com ar de aprovação, mas depois percebi que não tínhamos exactamente a mesma base comum. Ela não estava comigo nesta guerra. Estava incomodada porque o pombo andava a deixar marcas no chão acabado de lavar.

O que, sinceramente, só reforça o meu ponto.

Porque isto é uma característica muito transversal destes bichos: a falta total de respeito. Um bicho que sabe voar a passar as patas num chão molhado. Não precisava. Voar era precisamente a sua grande valência. Mas não. Preferiu andar.

E é por isso que eu nunca percebi quem são estas pessoas que, mais do que se deixarem roubar, ainda os alimentam. O ser humano passou milhares de anos a evoluir, inventou antibióticos, foi à Lua, criou o multibanco e a bifana no pão, para depois acabar num jardim a desfazer papo-secos para alimentar uma criatura que parece um cinzeiro com penas. Há gente a alimentar pombos com o mesmo tom de voz que se usa junto à incubadora de um prematuro.

Às vezes, dou por mim a pensar no esforço absurdo que foi construir cidades. Homens consumidos pelo pó e pela fome, a puxarem montanhas inteiras de pedra com as mãos abertas em ferida, gerações inteiras a morrer para levantar igrejas, praças e avenidas, tudo para que, séculos depois, exista um pombo gordo, húmido e profundamente desagradável a despejar diarreia de croissant misto numa estátua do século XVIII.

Nós construímos bibliotecas, hospitais, universidades, centros urbanos inteiros. Eles não construíram absolutamente nada. Mas, no fim, foram eles que ficaram com a praça.