Opinião
O sol a pino e eu faço uma revolução
São estes os sintomas que anunciam a minha maleita crónica anual. Abro então o calendário com tremuras de ressaca e preciso muito-muito, preciso mesmo-mesmo, orientar umas datas para o meu consumo agarrado de costa vicentina
Mais ao menos por esta altura, todos os anos, desata a crescer-me um Alentejo no quadrante superior esquerdo da caixa torácica. Uma protuberância cá dentro, um furúnculo que se vai enchendo até ocupar o espaço das andorinhas, que sabem ser hora de voar de mim para fora, porque me chegou o Verão. Tenho uns sintomas difusos, começo por achar que onde moro as noites são impregnadas de humidade hostil, há que secar o ar. Depois parece-me o mar insosso, falta-me mais uma mão-cheia de sal a arder na boca. Olhar para o céu à noite é coisa que já evito, privação aguda de estrelas em profusão. Nos bares, começam a incomodar-me as várias marcas de minis à escolha e a ausência absoluta de garrafinhas unidose de Martini Rosso. O pão que me entregaram à porta durante um ano inteiro, agora nem para torradas dá. As pessoas com quem me cruzo falam alto e falam limpo, exercitam-se em belas bicicletas, correm com belas sapatilhas técnicas e passeiam belos cães lindamente aparelhados. As festas ao pôr-do-sol, chamo-lhes assim para evitar o itálico, são antecipadas por cartazes que atiram nomes conhecidos em Ibiza. Está oficialmente aberta a época de caça ao cocktail. As redes regurgitam fotos de rodopios em grupo, de brindes plásticos com copos grandes, de ombros desnudos em pele de galinha - que o vento que agita melenas as mais das vezes sopra frio. E em rajadas que me empurram no sentido contrário ao sentido que levam os verões de onde moro.
São estes os sintomas que anunciam a minha maleita crónica anual. Abro então o calendário com tremuras de ressaca e preciso muito-muito, preciso mesmo-mesmo, orientar umas datas para o meu consumo agarrado de costa vicentina. Depois, vem o pico de ansiedade que chega a desarranjar-me o intestino, é sempre a meio de uma cólica que ligo ao Sr. Raul: olá, como estão por aí, a D. Carmen com certeza vai bem, que ela é rija, espero que sim, que saudades vossas, pois, vai-se levando, por aqui também, não liguei mais cedo porque, já sabe, trabalho e tal, mas diga-me, Sr. Raul… diga-me lá… pegue na agenda A5 de capa dura, abra na página da semana que começa a 8, eu espero, claro, não se preocupe, eu sei das muitas páginas escrevinhadas a lápis, parece que estou a vê-las, mas diga-me lá, Sr. Raul, o meu quarto nessa semana ainda está livre… não está?
Desligo o telefone e ainda faltam muitos dias, mas a boca já sabe a sal. Já ouço o coscuvilhar estridente dos insectos da noite, já durmo nua só com o lençol, já sinto uma vertigem concreta de declive abrupto quando desligo o carro numa estrada deserta e encaro extasiada aquele céu pontilhado de faíscas estelares. Na fatia de pão conto já com um travo acre, o senhor dos bilhares despejou a garrafinha de Martini num copo sem gelo nem casca de limão, ganhei o jogo contra um apanhador de laranjas, pagou-me uma mini da única marca que existe lá, acho que custou sessenta cêntimos.
Fiz hoje o primeiro risco na parede. Alma serena e tez morena, eis o combo que me sabe sempre a revolução.