Opinião
Música | Os dias de Páscoa
Como eu não acredito em milagres, para mim quem esteve na Meo Arena foi apenas a Rosalía, uma artista pop catalã à escala mundial, rodeada de excelentes músicos e bailarinos e com uma equipa de produção e marketing de altíssimo nível
1 – A Rosalía atuou em Lisboa e como era de prever, não era preciso ser bruxo ou messias, não se falou noutra coisa. Depois de alguns membros do Clero, como o Cardeal José Tolentino Mendonça, terem elogiado a espiritualidade da cantora, até o cronista do Expresso, Henrique Raposo, escreveu um ensaio sobre a artista, antecipando nas páginas daquele jornal os concertos realizados em período pascal – tudo conjugado como se Rosalía fosse uma nova Nossa Senhora.
Como eu não acredito em milagres, para mim quem esteve na Meo Arena foi apenas a Rosalía, uma artista pop catalã à escala mundial, rodeada de excelentes músicos e bailarinos e com uma equipa de produção e marketing de altíssimo nível, presume-se, que eu não estive lá. E a avaliar pelo que vi nas redes sociais, o público não deixou passar em claro a sua presença num dos eventos do ano, registando tudo em fotos e vídeos, material precioso e gratuito para promover a artista.
Quem também não esteve lá foram os fotojornalistas, situação que suscitou alguma indignação dentro do meio, uma vez que não foram concedidas acreditações. Artistas a serem artistas.
2 – Depois de um inverno severo, a Páscoa trouxe-nos uma semaninha bem soalheira que deu para rejuvenescer um pouco, física e mentalmente. Nisso estamos de acordo, eu e a Ressurreição, entenda-se. E acompanhar esses dias, para além do sol e os bons mergulhos nas águas ainda frias do sotavento algarvio, não podiam faltar algumas músicas, filmes, livros e até uma dança.
Antes de rumar ao sul, assisti na Culturgest, em Lisboa, ao excelente espetáculo de dança contemporânea Hornfuckers, de Diana Niepce. Uma peça que “questiona a norma, da sua hierarquia e da sua lógica. (…) Hornfuckers questiona o que somos, o que nos é imposto e como o sistema que nos sustenta pode ser fonte de imprevisibilidade e opressão”. Assim diz na sinopse e eu arrisco a acrescentar: corpos perfeitos e imperfeitos a tentarem encontrar uma saída deste mundo, que anda muito mal frequentado.
Seguiram-se uns dias de férias ao som de... adivinhem lá? Rosalía, lá está. E viram-se os filmes Hamnet, no cinema, Uma Pastelaria em Tóquio e A Firma, no streaming da RTP, e leu-se o livro com o título brincalhão Falar Piano e Tocar Francês, de Martim Sousa Tavares, que também serve de ótimo roteiro cultural. Os filmes, cada um à sua maneira, agradaram bastante – com destaque para A Firma, de Sydney Pollack, que me fez reviver os gloriosos tempos dos clubes de vídeos, onde estes “filmes-puzzle” eram um sucesso. Ai, nostalgia.