Opinião
Música | Mercury Rev: os 25 anos de All Is Dream em Glasgow
Em Glasgow, na sala The Classic Grand, uma sala que já viu de tudo com um cheiro indefinível a cerveja derramada. A ocasião justificava-se: os Mercury Rev comemoravam os 25 anos de All Is Dream. Um disco que, convenhamos, é daqueles que se ouvem de fones, deitado no chão, e uma crise existencial controlada
Há uma idade em que a malta vai a concertos e repara em duas coisas: na banda e no público. A segunda observação foi mais rápida. Bastou olhar em volta para perceber que eu era, com todo o respeito, um dos mais novos da sala. Havia naquela plateia uma densidade de cabelos grisalhos, casacos impermeáveis e óculos de ver ao perto particularmente bem-disposta, ou não fossem eles igualmente veteranos a virar pints.
Em Glasgow, na sala The Classic Grand, uma sala que já viu de tudo com um cheiro indefinível a cerveja derramada. A ocasião justificava-se: os Mercury Rev comemoravam os 25 anos de All Is Dream. Um disco que, convenhamos, é daqueles que se ouvem de fones, deitado no chão, e uma crise existencial controlada.
A promessa era, portanto, de noite solene. E foi, mas não exatamente como o cartaz anunciava. Porque o curioso, e aqui está a primeira traição deliciosa da noite, é que as músicas que mais fizeram vibrar aquela plateia de veteranos não foram as do disco celebrado. Foram as do anterior. Deserter’s Songs, de 1998. Bastaram os primeiros acordes de “Goddess In A Highway” para que a sala inteira, subitamente com quase 30 anos a menos, voltasse a sorrir, inocente, como dantes. O All Is Dream era o motivo da festa; o Deserter’s Songs foi a festa.
Em palco, a formação atual consiste nos dois membros originais, e depois um trio jovem que parece ter sido recrutado num conservatório e num clube de eletrónica ao mesmo tempo. O baterista é um caso à parte: toca com uma soltura jazzística, cheio de virtuosismo que ninguém pediu mas que todos agradecem. Ao lado, um saxofone e uma parafernália de máquinas, dois jovens a olhar para os mestres com aquela mistura de respeito e pânico de quem sabe que está a segurar um património.
Por falar em património: “Holes”. O momento alto da noite, sem discussão possível. Deveria ser classificado como património imaterial da humanidade. Versão estendida, executada com um sentimento que poucos conseguem, aquela coisa rara de uma banda que toca uma canção que já não lhe pertence, mas que sabe que tem de a entregar intacta e com um embrulho bonito. A sala ficou suspensa, o ar ficou espesso, e eu, que já tinha ouvido aquilo centenas de vezes nos fones, percebi subitamente porque é que se paga bilhete. Um hino, uma ode. Ainda arrepia.
No fim, saímos para a chuva de Glasgow com aquela sensação estranha de ter estado numa celebração que não era bem sobre o que dizia ser. Mas talvez seja essa a graça de envelhecer com uma banda: os discos que ela celebra raramente são os que nós guardámos. E, no fundo, toda a gente naquela sala, grisalha, com impermeável, de óculos de ver ao perto, já sabia disso antes de entrar. Foi por isso que foi.