Opinião

Música | Fake it till you make it

8 mai 2026 07:15

As táticas não são inovadoras. No século XX, as editoras pagavam a DJ's para tocar singles nas rádios. Hoje, paga-se a microinfluenciadores para publicarem conteúdos no TikTok, ou criam-se páginas de fãs falsas que elogiam um artista como se fossem vozes espontâneas da comunidade

Num artigo do The Guardian assinado a semana passada por Shaad D'Souza, foi levantado um tema curioso, porém, sem novidade: segundo o autor, há algo de profundamente irónico no facto de a música indie, que sempre se orgulhou da sua independência, estar agora no centro de uma das estratégias de marketing mais cínicas da indústria. O que antes era um refúgio, onde a paixão genuína ditava o sucesso, transformou-se num palco para agências fabricarem viralidade à custa da ilusão de espontaneidade.

Não é novidade que as redes sociais são uma ferramenta de manipulação. Partidos políticos, celebridades e até marcas de tampões já o faziam. Mas no indie, onde a credibilidade sempre foi moeda corrente, a descoberta de que alguns artistas recorrem (a sua equipa, neste caso) a fãs falsos, influenciadores pagos e narrativas fabricadas, soa a traição. O escândalo não é apenas o método — é a normalização da desonestidade. Quando uma banda como os Geese, aclamada pela crítica em publicações da especialidade, é acusada de ter o seu sucesso fabricado, a pergunta que fica no ar é: o que resta de autêntico? E logo os Geese, que até são do caraças.

As táticas não são inovadoras. No século XX, as editoras pagavam a DJ's para tocar singles nas rádios. Hoje, paga-se a microinfluenciadores para publicarem conteúdos no TikTok, ou criam-se páginas de fãs falsas que elogiam um artista como se fossem vozes espontâneas da comunidade. Ao que parece, enviam-se criadores de conteúdos para festivais (como o Glastonbury) para filmarem concertos e publicarem vídeos com um tom entusiasta – por 200 libras por pessoa.

O mais irónico é que, segundo vários profissionais da indústria, estas campanhas nem sequer funcionam por aí além... Mas então, porque é que os artistas e as editoras continuam a investir? Porque todos o fazem. A pressão para não ficar para trás é grande. O verdadeiro dano destas práticas não é financeiro, mas cultural. Os fãs mais dedicados – aqueles que, durante anos, defenderam a música indie como um antídoto contra a artificialidade do pop – sentem-se traídos. Nas páginas de fãs dos Geese, os debates são acalorados: será que o sucesso da banda ainda é legítimo? E, mais importante, o que é que isto diz sobre o estado da indústria musical? Num mundo onde o algoritmo dita o sucesso, os artistas sem grandes orçamentos são forçados a jogar um jogo que não foi feito para eles.

Talvez o escândalo tenha um lado positivo, refere Shaad D'Souza: obrigou os fãs a acordar. Como contou ao The Guardian um empresário: “Grande parte da internet é uma farsa”. A música indie pode não ser imune à manipulação, mas a sua força sempre esteve na ligação genuína com o público. E essa não se compra.