Editorial

Mobilidade ou ‘mobilidadezinha’?

29 jul 2021 11:45

Enquanto não se projecta uma rede de ciclovias à séria, vão-se fazendo cicloviazinhas.

É sabido o gosto que temos pelos diminutivos.

Convidamos os amigos para um cafezinho, para uma cervejinha ou apenas para lhe dar um abracinho.

Teimamos em clamar por um pãozinho com manteiga ou por uma bolachinha, que pode ser acompanhada por um chazinho; em pedir licença para ir fumar um cigarrinho, em sair ao domingo à tarde para dar um passeiozinho.

Também nos prestamos a dar um jeitinho (seja no que for), ou a fazer um favorzinho. Se alguém cai no infortúnio, é um coitadinho.

Se o tempo arrefece, dizemos que está mais fresquinho. Se as vozes se alteram, pedimos para falarem mais baixinho. E quando não queremos tanto, pedimos só um bocadinho.

Vem isto a propósito do trabalho que fizemos esta semana sobre mobilidade.

É consensual, quanto mais não seja pelas experiências bem sucedidas em vários países europeus, que a par de uma boa rede de transportes públicos, a deslocação em bicicleta contribui para a diminuição do número de automóveis nos centros das cidades.

Mas para que isso aconteça, são imprescindíveis corredores cicláveis, com um mínimo de conforto e segurança.

Leiria tem registado avanços neste domínio, mas parece ainda não ter saído da fase diminutivo.

Enquanto não se projecta uma rede de ciclovias à séria, vão-se fazendo cicloviazinhas.

Veja-se o exemplo do ‘extracto’ de ciclovia na Avenida Heróis de Angola, na nova via em frente aos Capuchos, na Avenida 25 de Abril.

Se é assim dentro da cidade, a deslocação até aos aglomerados urbanos periféricos revela-se ainda mais difícil e acidentada, para quem arrisca fazer o percurso em bicicleta.

Foi o que constatámos nos trajectos entre os Marrazes, Cortes e Parceiros, e o centro de Leiria. Escolhemos estes, mas podíamos ter escolhido os Pousos, o Telheiro ou o Planalto, que as dificuldades não seriam muito diferentes.

Ultimamente, têm sido anunciados projectos de maior fôlego em matéria de percursos cicláveis, da serra até ao mar, do mar até à sede do concelho.

Mas nenhuma destas obras ficará completa se terminar nos arrabaldes, precisamente onde se concentra um maior número de pessoas, que tendencialmente se desloca para o centro da cidade.

É verdade que pode fomentar o uso da bicicleta, porém, não cumpre com um dos objectivos que devia ser crucial: incentivar as famílias, os jovens, os trabalhadores, a trocarem os carros ou as motos por um veículo a pedal.

E enquanto assim for, não estamos a falar de mobilidade, mas de ‘mobilidadezinha’.

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