Opinião

Minuto de literacia financeira dicas e reflexões: Mas afinal, onde está o dinheiro da minha empresa?

29 nov 2025 10:18

Uma empresa pode apresentar um resultado líquido positivo sem que isso se traduza em fundos monetários equivalentes

Esta questão é recorrente entre empresários, sobretudo quando são confrontados com o imposto apurado e percebem que o valor tributável não corresponde ao saldo de meios líquido disponível nesse período de tributação. “Se a empresa teve lucro, onde está o dinheiro?” Parece contraditório, mas não o é. O problema está, quase sempre, em confundirmos resultado com dinheiro. A explicação está na distinção entre ótica económica e ótica de caixa, na preparação das demonstrações financeiras.

Em Portugal, tal como em praticamente todas as economias desenvolvidas, o resultado é apurado pela ótica económica: rendimentos e gastos são reconhecidos segundo o princípio do acréscimo, independentemente do momento do seu recebimento ou pagamento. Isto significa que os rendimentos e os gastos são reconhecidos quando são gerados, e não quando o dinheiro efetivamente entra ou sai. Esse resultado é depois ajustado por via fiscal — através de correções, tais como: gastos não dedutíveis, divergências entre o tratamento contabilístico e o fiscal em imparidades, provisões, depreciações/amortizações, entre outras — dando origem à matéria coletável sobre a qual incide o imposto.

Daqui resulta uma realidade frequentemente mal compreendida: uma empresa pode apresentar um resultado líquido positivo sem que isso se traduza em fundos monetários equivalentes. É um paradoxo apenas à primeira vista. Imagine-se, por exemplo, uma empresa que apresenta um resultado de 100.000 euros. Seria expectável encontrar esse montante no banco? Raramente. Parte das vendas pode continuar por receber, já reconhecidas como rendimento, mas ainda sem impacto no “caixa”. O inverso também acontece: a tesouraria pode estar confortável graças a adiantamentos de clientes, apoios financeiros ou simples atrasos no pagamento a fornecedores, sem que isso represente geração de lucro – criação de valor económico. 

Para clarificar este “desalinhamento”, existe uma ferramenta decisiva e frequentemente subvalorizada: a Demonstração dos Fluxos de Caixa, uma demonstração financeira que evidencia as entradas e saídas de meios monetários. A sua leitura, rigorosa, permite compreender a capacidade da entidade para gerar liquidez, identificar pressões de tesouraria e explicar, de forma transparente, por que motivo uma empresa com lucro pode não ter dinheiro — e porque uma empresa com liquidez pode não estar a gerar resultados sustentáveis.

Em síntese: o resultado reflete a performance económica; a liquidez traduz a capacidade financeira imediata. Compreender ambas as dimensões é essencial para avaliar a verdadeira saúde de qualquer empresa. 

Texto escrito segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico de 1990