Opinião

Miles Davis, a retumbante face B de um génio

23 jun 2026 17:46

Em termos musicais esse revolucionamento milesiano começaria a despontar quando em março de 1970 surgiu no mercado o seu surpreendente álbum Bitches Brew, em que a habitual instrumentação jazzística começa a ser posta de parte

Em ano de centenário do genial Miles Davis têm-se sucedido os concertos de homenagem, com a curiosidade de o repertório neles habitualmente utilizado ser anterior a 1969, dando a impressão de que o seu falecimento foi nesse ano, um ano em que, significativamente, a sua música se revolucionou, integrando e absorvendo dialeticamente instrumentação eletrónica e linguagem rock, passando ele mesmo a apresentar-se como uma autêntica estrela dessa área, numa transição radical, mesmo em termos de indumentária, abandonando verticalmente as gravatas de seda e os fatos completos italianos, passando a vestir coletes de pele, camisas estampadas, calças de couro acetinadas e muito justas, lenço ao pescoço, cinto dourado, botas prateadas e óculos escuros, entre outros adereços.

Em termos musicais esse revolucionamento milesiano começaria a despontar quando em março de 1970 surgiu no mercado o seu surpreendente álbum Bitches Brew, em que a habitual instrumentação jazzística começa a ser posta de parte, adicionando novos instrumentos de sinal áudio elétrico, como o piano elétrico Fender Rhodes, o baixo elétrico ou o trompete eletricamente processado, captando o som por meio de microfones ou pickups, para ser alterado através de pedais de efeitos, processadores multiefeitos ou plugins de audiologística, fundamental contribuição para alterar o seu foco rítmico, agora inspirado nos rhythm & blues e no rock, permitindo que esse enquadramento sonoro alterasse e conduzisse a força das suas novas melodias, injetando as composições de construções soltas e fragmentadas, transitando de um momento hipnotizante para outro, conjugando leveza e moderação com transições bruscas e radicais, surpreendendo pelo uso liberal de eco, reverberação e outros efeitos de estúdio. Alguns dos músicos convidados por Miles para este disco potenciam literalmente esses requisitos e a sua nova linguagem, quer através da sonoridade agressiva de Joe Zawinul no piano elétrico ou dos cortantes riffs de guitarra de John McLaughlin, bem como pela ressonância da sua equipa de percussão e das furtivas linhas de baixo elétrico tocadas por Harvey Brooks, visando claramente a sua promoção junto de um novo público novo, mais jovem e de espírito aberto a novas sonoridades. O investimento foi extremamente bem-sucedido e este precursor Bitches Brew, além de lançar definitivamente as raízes do jazz rock, vendeu mais de 100.000 cópias, quantidade até então inédita para um músico de jazz, abrindo também as portas a Miles Davis para a participação em festivais de rock, como a sua histórica e aclamada participação no Wight Festival, em 29 de agosto de 1970, com alguns dos temas de Bitches Brew como epicentro da sua atuação.

Entre 17 e 20 de junho de 1970, essa nova área de sucesso de Miles Davis, levá-lo-ia a outro festival, o de Fillmore, concerto editado em disco e colocado no mercado em outubro desse ano, sob o título Miles Davis at Fillmore, um aparatoso e absolutamente irresistível álbum, em que se faz acompanhar de novas e reluzente estrelas como Dave Holland, Jack DeJohnette, Chick Corea, Keith Jarrett, Airto Moreira e Steve Grossman, interpretando um repertório em que alguns temas de Bitches Brew continuam a assinalar o seu marcante lugar e o jazz rock confirma que veio mesmo para ficar e eternizar-se no seu cardápio. Sendo este, claramente, um disco monumental e tão eletrizante que mais ninguém parece conseguir tocá-lo ao vivo, pelo menos por cá e uma obra-prima fundamental na História do Jazz.

Continuando a evidenciar a renovada e fantástica atividade discográfica de Miles Davis a partir de 1970, é praticamente obrigatório aqui reverenciar o fulgurante e vulcânico A Tribute to Jack Johnson, álbum de 1971, que é a banda sonora do documentário homónimo de Bill Cayton sobre a vida do pugilista Jack Johnson, fazendo-se novamente Miles acompanhar de trepidantes estrelas como John McLaughlin, Sonny Sharrock, Herbie Hancock, Chick Corea, Steve Grossman, Bennie Maupin, Michael Henderson, Jack DeJohnette e Billy Cobham, num disco de referência, em que Miles abandona a tutela temática de Bitches Brew e envereda por uma abordagem mais concentrada em hard rock e funk, nela assumindo extrema importância a participação de Michael Henderson, experimentado ex-baixista de Stevie Wonder, e a vivencial inspiração na estonteante música de Sly Stone. Este álbum de eleição marcou definitivamente o seu lugar no pódio da discografia milesiana e é, certamente, um daqueles que para programadores e intérpretes está completamente fora de causa, pois é um daqueles casos em que são mesmo precisas unhas para tocar guitarra ou, melhor escrevendo, tocar trompete e toda a instrumentação deste histórico grupo: um discão, daqueles que nunca enganam e em que a genialidade se respira por todos os cantos!

1971 foi também ano de uma determinante digressão de Miles Davis pela Europa, acontecimento que o traria pela primeira vez a Portugal, para um histórico, memorável e eletrizante concerto, na primeira edição do determinante Festival de Jazz de Cascais, onde atuou em 29 de novembro desse ano, acompanhado por músicos da talentosa propensão de Keith Jarrett, Gary Bartz, Michael Henderson, Ndugu Leon Chancler, James Mtume Forman e Charles Don Alias. Mais de 12.000 pessoas preenchiam o Pavilhão do Dramático de Cascais quando Miles e os seus músicos entraram em palco e iniciaram o concerto, incluindo alguns notáveis da música portuguesa, como Amália Rodrigues, Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira, com os menos conhecedores dos seus passos mais recentes convencidos de que iam ouvir jazz, convicção imediatamente refutada quando Miles soprou as primeiras notas num exuberante trompete conectado a um pedal de efeitos de wah-wah e volume, para, como revelaria na sua autobiografia, se aproximar do som do seu herói Jimi Hendrix, surpreendendo também literalmente pela conformidade a efeitos estilísticos do free jazz e da harmolodia colemaniana, que o lapidar saxofonista Gary Bartz incorporava neste grupo, tendo, contudo, sido um até aquela data pouco conhecido por cá, o divinal Keith Jarrett, que se tornaria uma das maiores e mais deslumbrantes estrelas da noite, com o seu toque repleto de raridade e a sua cativante sensualidade em palco, feita de entrega absoluta. Mas, como se esperava, o decisivo Miles Davis foi mesmo o maior astro em palco naquela noite, siderando completamente o público num concerto em que não faltou a nessa época sempre presente "Sanctuary", de Bitches Brew, e 3 outros temas até então nunca gravados: "Directions", que seria apenas editada em disco em 1981, e ainda "Honky Tonk" e "Funky Tonk", discograficamente editadas em 1974. Miles Davis e a sua banda arrasaram completamente Cascais, deixando o público literalmente noutro mundo e o seu novo jazz filosófica e vivencialmente tarimbado em rock na memória de todos, embora essa História estivesse ainda longe de terminar.

Em 1972, Miles libertou a sua exploração de caminhos de fusão com linguagens exteriores ao jazz e reassumindo as libertárias influências recebidas do penetrante e envolvente funk de Sly Stone e James Brown, do transformador experimentalismo musical de Karlheinz Stockhausen e do libertino free jazz de Ornette Coleman, consagrando-as em disco no vertiginoso e orgiástico On The Corner, fazendo-se acompanhar de estrelas como John McLaughlin, Colin Walcott, Billy Hart, Jack DeJohnette, Al Foster, Badal Roy, Harold "Ivory" Williams, Herbie Hancock, Michael Henderson, David Leiberman, Chick Corea e Paul Buckmaster, este último um violoncelista britânico que tinha apresentado a Miles a música de Stockhausen. Ironicamente, Miles descreveu On the Corner como um disco "Stockhausen mais funk mais Ornette Coleman", nele evidenciando uma estrutura conceitual em que reconcilia ideias da música culta contemporânea, do jazz de vanguarda e da música de dança baseada no ritmo, sendo à época um álbum de difícil assimilação pelo público, valendo-lhe mesmo o afastamento definitivo de antigos admiradores conotados com o be bop e o chamado jazz clássico. Todavia, a verdade acabaria por vir ao de cima e On the Corner é hoje reconhecido e referenciado como um disco fundamental no percurso de Miles Davis. Bem bom!

Após alguns conturbados anos de paragem, Miles Davis regressa ao universo discográfico em 1986, concretizando esse regresso com o absolutamente irresistível álbum Tutu, em que liberta a sua exploração de caminhos de fusão com linguagens exteriores ao jazz e assumindo influências recebidas do rhythm & blues e do glorioso funk da década de 1980, bem como da música de Prince, de quem se tornara profundo admirador, sabendo-se que Miles planeou algumas das faixas do álbum para uma colaboração entre os dois génios, que acabou por não se verificar, acabando por ter o plurifacetado baixista Marcus Miller como parceiro criativo e não só, pois este convidado de luxo deu-se ao luxo de neste álbum tocar quase tudo, incluindo baixo elétrico, sintetizadores, baterias eletrónicas, clarinete baixo e saxofone soprano, fazendo-se também acompanhar ocasionalmente de astros como Jason Miles, Paulinho da Costa, Bernard Wright, Omar Hakim, Adam Holzman, Steve Reid, George Duke e Michał Urbaniak. Trata-se pura e simplesmente de um disco bom de morrer e um dos eternos cartões de visita da produção discográfica milesiana, um daqueles que se ouvem sempre com infinito prazer.

O falecimento de Miles Davis ocorreria em 1991, ano em que voltou a atuar em Lisboa, no Coliseu dos Recreios, em 17 de março, num concerto a que assisti deliciado como nunca e em que a sua sonoridade voltara a evoluir noutro sentido e denotava a enorme influência rap / hip hop, não passando despercebidos os 20 mil watts de som e os 180 mil de luz que o acompanhavam, explicando muito bem que não se tratava de um concerto de jazz! Junto a si apresentaram-se em palco os músicos Deron Johnson, Foley McCreary, Richard Patterson, Ricky Wellman e Kenny Garrett, revelando-se este último como a maior e mais vibrante surpresa de uma noite em que a pureza do seu jazz anterior a esta fase da sua carreira foi completamente apagada por temas mais atuais e atuantes do seu repertório, como Perfect Way, Hannibal, Human Nature, Time After Time, Tutu, Serenate/Me + You, Carnival Time, A Girl + Her Puppy, Penetration, Are U Legal Yet e Jail Bait, sendo os últimos quatro da autoria de Prince. Miles voltou a ser dono e senhor da nossa admiração e do nosso sentir, com todos nós a sairmos absolutamente rendidos do Coliseu, convictos de que tínhamos estado em pleno paraíso. O génio derrotara-nos ao vivo pela última vez, como seis meses depois confirmaríamos.

Doo Bop foi mais um seu estrondoso e absolutamente irresistível álbum, lançado no mercado em 1992, já após o seu falecimento, concretizando-se como um disco em que Miles liberta a sua eviterna demanda de caminhos de fusão com linguagens exteriores ao jazz e assume influências recebidas do hip hop e do acid jazz, em parceria com o inventivo rapper Easy Mo Bee, que após o seu inesperado falecimento foi convidado pela Warner Bros a completar o disco, compondo sobre gravações de trompete inéditas de Miles, provenientes do seu álbum Rubberband, gravado em 1985, que não tinha ainda sido colocado no mercado (o que apenas sucederia em 2019), assim surgindo duas das faixas deste álbum e uma reprise do seu primeiro tema, apresentando neste disco Miles uma sonoridade menos tímida e mais moderna, sexy, aberta e complexa, sinal de evolução da sua música para uma vertente mais aberta a ouvidos mais jovens, num disco em que as suas últimas companhias criativas foram Easy Mo Bee, Deron Johnson, J.R. e John Bigham, que apenas participou nas faixas finalizadas postumamente. Doo Bop fica para a História como um vibrante testemunho gravado daqueles que haveriam de ser os seus últimos procedimentos de pesquisa e procedimento musical, sendo permitida a dúvida sobre qual seria o seu passo seguinte nesse campo. Mas, bem melhor que tudo isso, será sempre a atitude de ouvi-lo alto e bom som, com esta música sempre jovem de um sempre jovem Miles Davis a dar-nos eternamente umas quantas voltas aos sentidos. Sem espinhas e sem stresse.