Opinião

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4 set 2021 15:45

O ser humano deve ser treinado, desde tenra idade, segundo uma lógica de cooperação e não de competição

A guerra sem precedentes, que no domínio da saúde tem assolado o mundo, levou a que muitos países recorressem a militares e ao seu know-how para enfrentar o inimigo invisível.

Portugal não foi exceção e decidiu colocar a tarefa da vacinação em massa nas mãos de um militar, disciplinado e  destemido, que reúne  o consenso e aplauso da esmagadora maioria da opinião pública.

O povo gosta de se sentir seguro, mas, sobretudo, gosta de clareza e coerência. E nisto, Gouveia e Melo tem sido exímio, também, ao defender e exaltar a importância da coesão do coletivo na esfera individual.

Algo que falta sentir à sociedade civil por alguns daqueles que operam, sobretudo, no espaço público, o que tem conduzido a um desinteresse e desacreditação crescentes pela vida pública.

Este desgaste refletido, designadamente, na prática do voto, é deveras preocupante e deve ser alvo, no mínimo, de reflexão e discussão.

A sociedade civil constitui um alicerce crucial para uma sociedade próspera, contrária a um estado de anomia social, tendo como papel essencial manter a democracia e contribuir para o combate das desigualdades e promoção da coesão e justiça social, de forma ativa e participada.

Já Aristóteles deduzia que o Homem é naturalmente político e, sendo gregário, procura na comunidade a sua realização de forma ativa.

Mas exercer uma atividade de participação ativa, por parte de todos nós, também implica aprendizagem e treino.

Na verdade, o ser humano deve ser treinado, desde tenra idade, segundo uma lógica de cooperação e não de competição, sendo a escola, enquanto espaço de aprendizagens diferenciadas e de interação social por excelência, um lugar privilegiado na potenciação das competências socioemocionais e de cidadania que farão toda a diferença no sucesso e bem-estar de todos e de cada um.

É necessário empoderar os cidadãos, desde cedo, no âmbito deste exercício de cidadania, e ouvir as várias vozes, porque é através do pensamento divergente que se pode acrescentar e edificar.

É preciso mais, por mais!

Neste período pandémico, tem-se perdido muito, é certo, mas também se tem ganhado, nomeadamente resiliência, autonomia, empatia, consciência coletiva, valores absolutamente essenciais para uma sociedade menos desigual e mais justa.

Nem tudo pode ser medido, contrariamente à cultura instalada neste sentido.

Urge equilibrar razão e emoção, uma vez que qualquer visão que ignore o poder das emoções é, como refere Goleman, "tristemente míope", logo, o indivíduo, antes de mais, deve ser emocionalmente inteligente.

Que seja esta a prioridade, e não somente recuperar as ditas "aprendizagens perdidas".

É tempo de efetivar a mudança de paradigma tão anunciada bastas vezes!

Será este, porventura, o caminho que nos aproximará enquanto seres sociais que somos, de forma coesa, valorizando a diversidade, por forma a contrariar o crescente individualismo que se tem vindo a inculcar nos hábitos e condutas que, de forma continuada, farão parte da nossa herança sociocultural e identidade societária.

 

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990