Opinião

Letras | O Doutor Ricardo Jorge (1858 – 1939)

6 mar 2021 20:00

Além de conduzir as operações de erradicação da peste bubónica no Porto em 1899 e de liderar os esforços para travar a chamada gripe espanhola em 1918, foi um diligente homem de Letras

 

À conta deste Coronavírus que assolou o mundo da forma mais inesperada e avassaladora, todos os dias repetidamente ouvimos falar no Instituto Ricardo Jorge que leva o nome deste extraordinário médico desde o ano de 1929.

Que foi um médico notável sabemos todos bem e, a Wikipedia, diz-nos que foi «um médico, investigador e higienista, professor de Medicina e introdutor em Portugal das modernas técnicas e conceitos de saúde pública e que exerceu diversos cargos na administração da saúde.»

O que nos escapa é que este senhor, além disto e de conduzir as operações de erradicação da peste bubónica no Porto em 1899 e de liderar os esforços para travar a chamada gripe espanhola em 1918, foi um diligente homem de Letras.

Dedicou-se ao estudo histórico-literário de escritores de séculos anteriores, memorialismo literário que nasceu com o Romantismo e que funcionou como auxiliar da História da Literatura portuguesa e escreveu obras como «Luís António Verney e a Reforma Pombalina» (1882); «Ramalho Ortigão» (1915); «Francisco Rodrigues Lobo Estudo Biográfico e Crítico» (1920), o poeta leiriense que vai ser homenageado pelo Município pelos 400 anos da sua morte.

 Depois de aposentar-se da sua incansável luta pela Medicina, optou pela literatura de viagens publicando «Canhenho de um Vagabundo» (1922); «Passadas de erradio» (1924); «Brasil! Brasil!» (1930)

Sobre esta dualidade, diz o próprio o seguinte no prefácio do livro sobre Rodrigues Lobo: «Extranhar-se há que ouse ocupar-me ex-professo de matéria alheia à minha profissão e mister público. Há almotacés que com ferocidade pombalina arruam os ofícios, e ai do sapateiro que sai das encóspias. (…) Sciências e letras, para êstes olheiros sobrecenhudos, teem fôsso de permeio. (…) Será por toda a parte que reina tal celebreira? não, é aqui, exclusivamente nesta Beócia encravada no calcâneo europeu; é mesmo talvez o estigma mais grosseiro e patente da incultura geral e especial das nossas chamadas classes ilustradas.  Sciências e letras, que absurda dicotomia!» Atente-se na ironia e na erudição da sua prosa!

Esta completíssima obra sobre Rodrigues Lobo, que Ricardo Jorge (RJ) dedica à Professora Carolina Michaëlis e que continua a ser fundamental para os estudos do poeta seiscentista, foi escrita entre 1909 e 1912, durante «uma crise doentia que me prostrava a revezes longos meses (…) inapto para as ocupações habituais, entretinham-me as pesquisas de biografia e crítica literária

Ficamos a saber pela Professora Rita Marnoto (RM), que faz a apresentação do livro na edição de 1999, que, dadas as suas preocupações de rigor científico, RJ fez investigações nas principais bibliotecas nacionais (Nacional, da Ajuda, Torre do Tombo, Universidade de Coimbra e do Porto) em duas bibliotecas particulares, a de Palha e de Fernando Tomás e ainda nas bibliotecas de Madrid, do Rio de Janeiro e do British Museum. Um vanguardista no dizer de RM pelo método utilizado de base racionalista apoiada em critérios textuais rigorosos.

«O propósito bem ou mal logrado do autor foi produzir uma retratação monográfica tão completa quanto possível, de um grande mestre da arte e da língua portuguesa.» - escreve RJ no prefácio.

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990