Opinião

Letras | Nem Todas as Árvores Morrem de Pé de Luísa Sobral

15 mai 2026 08:20

Uma narrativa duríssima que se desenrola na Alemanha entre 1931, pouco antes de Hitler ter tomado conta do governo do país, e os anos que se seguem à queda do Muro de Berlim, em 1989

Ao contrário de grande parte dos leitores deste livro, não fui atraída pela música que a novel autora tem produzido que desconheço. Gostei do tom antitético do título, gostei da introdução ao tema escrita na badana da capa (o drama das duas Alemanhas do pós-guerra) e da imagem da capa que parece querer suavizar a temática da narrativa.

Trata-se de uma narrativa duríssima que se desenrola na Alemanha entre 1931, pouco antes de Hitler ter tomado conta do governo do país, e os anos que se seguem à queda do Muro de Berlim, em 1989, com a difícil (des)adaptação dos alemães de Leste à realidade ocidental. Vale-nos a nós, leitores, a presença constante das plantas, das flores, das árvores que se enredam pela trama que foi esta triste passagem de grande parte da História da Europa do século XX, e que, de alguma forma, tentam fazer-nos abstrair da crueldade da brutal dominação.

São duas vidas contadas, com linguagem simples, por duas narradoras separadas no tempo, mas com destinos comuns: Emmi nasce em 31 perto de Berlim, e conta como foi viver nesse tempo de medo e opressão. Na sua juventude de pobreza conhece Markus ou Mischa, de Berlim Oriental com quem casa, encantada pelas maravilhas da vida em Berlim Oriental de que ele a convence. A construção do Muro dá-se no ano seguinte, em 1961, separando-a da mãe e da irmã.

A outra narradora, de que desconhecemos o nome, nasce em Berlim Oriental já depois da construção do Muro e, graças às influências do pai Mischa, elemento influente do Partido, cresce rodeada de facilidades – e de medo quando percebe o pavor que o pai infunde em algumas pessoas, nomeadamente na mãe.

A convite do seu querido amigo Klaus – médico como ela – para um evento na floresta, fica inesperadamente a saber, por uma amiga dele que esteve presa, o tipo de homem que é o pai – um violento carcereiro dos presos políticos. Resolve fugir com eles para Praga levando consigo apenas o seu herbário.

Aí, onde, juntamente com centenas de outros foragidos passam semanas acampados no jardim da Embaixada da Alemanha Ocidental, acabam por ser enviados para Itália onde começam uma vida de mudanças, cada um por seu lado, conseguindo sobreviver graças aos seus conhecimentos das plantas de que extraem produtos naturais que vendem. Até que chegam a Portugal, onde são muito felizes, terminando as suas vidas – ela e Klaus, seu grande amor – em Vila Real, da forma algo poética que lêramos no Prólogo.

Estruturalmente, a narrativa desenvolve-se em pequenos capítulos em que alternam as histórias de ambas as narradoras e que nos vão compondo o todo da ação. Estes pequenos capítulos alternam com breves pensamentos que pretendem fazer-nos aceitar os acontecimentos e pelas muitas cartas que Mischa escreve a Emmi mostrando o seu grande amor que não condiz com a violência com que a trata e com o homem cruel que é. As plantas são o grande sustentáculo da obra, enquanto o Muro, podemos dizer, é a sua “personagem principal”.