Opinião
Letras | Memória de Elefante (1979), António Lobo Antunes
Uma vida e uma profunda crise existencial num espaço temporal curtíssimo, apenas 24 horas. A viagem por vários pontos de Lisboa em debate com a viagem ao seu caos interior, manifestam três grandes frentes de dor: fracasso familiar, o trauma de guerra e a crítica à psiquiatria em Portugal
António Lobo Antunes faria neste mês 84 anos e como é sobejamente sabido, foi um escritor e psiquiatra português, reconhecido internacionalmente, premiado e cuja obra literária explora temas como a guerra colonial, as relações humanas e as crises sociais e existenciais.
Conhecido por um estilo exigente, com narrativa fragmentada, estruturas temporais complexas, com recurso a metáforas constantes e uma visão muitas vezes pessimista, encerra também com tom crítico a realidade portuguesa.
Memória de Elefante foi a sua primeira publicação em 1979, e no mesmo ano Os Cus de Judas, seguidos por Conhecimento do Inferno em 1980.
A guerra colonial e a sua experiência em Angola como médico militar, aportaram traumas e memórias do conflito à sua obra. Publicou 32 romances, diversas crónicas ao longo da carreira, consolidando-se como um dos autores portugueses mais traduzidos e reconhecidos internacionalmente, tendo sido frequentemente candidato ao Nobel da Literatura.
Neste Memória de Elefante, condensa uma vida e uma profunda crise existencial num espaço temporal curtíssimo, apenas 24 horas. A narrativa acompanha um dia na vida de um médico psiquiatra em Lisboa – um evidente alter ego de Lobo Antunes. O enredo começa de manhã, quando o médico entra para o seu turno no Hospital Miguel Bombarda, e termina por volta das 5 da madrugada do dia seguinte, no seu apartamento no Monte Estoril.
A viagem por vários pontos de Lisboa em debate com a viagem ao seu caos interior, manifestam três grandes frentes de dor: fracasso familiar, o trauma de guerra e a crítica à psiquiatria em Portugal.
A densidade poética depurada com formas estilísticas e metafóricas ricas, mas por vezes bizarras, alimentam a viagem psicológica densa entre o “eu” e o “ele”, onde o protagonista manifesta a própria dissociação de identidade.
Em suma, a narrativa não vive do que acontece a seguir, mas do peso dilacerante de tudo o que o protagonista não consegue esquecer.