Opinião

Letras | José Pedrosa Lourenço - Um leiriense à frente do seu tempo

10 jul 2026 08:47

Talvez por se tratar de alguém de grande visão tenha sido liminarmente impedido de completar a sua carreira eclesiástica, o que lhe provocou a morte

O título do livro (Hora de Ler, 2026) não está pela ordem apresentada acima. Na realidade é Pedrosa Lourenço, voz que a Igreja não escutou e, em jeito de hipotexto, vem então a alusão Um leiriense à frente do seu tempo - que é como melhor o defino depois de o ler.

O autor, J. Afonso Pedrosa de Oliveira, já antes nos brindou com o livro Dos Espinhos de Maio, aos Cravos de Abril (Hora de Ler, 2023) ele que, como alferes miliciano, integrou a coluna do heróico Salgueiro Mais em Abril de 74, narrando momentos vividos nesse acontecimento histórico.

Este é um livro muito diferente: baseia-se numa investigação longa e profunda sobre a breve vida do jovem José Pedrosa Lourenço (JPL) (1926 – 1950) nado e criado em Marrazes – tio e padrinho do autor – que, concluída a instrução primária onde mostrou já ser dotado de grande inteligência com grande aptidão para as letras, o desenho e a música, ingressou no Seminário de Leiria aos onze anos. Ali fez os seus estudos eclesiásticos e o 3.º ano do Curso de Teologia sempre com notas elevadas. Em finais de 1947, parte para Roma para completar os estudos teológicos na Universidade Pontifícia Gregoriana. Fazendo jus aos seus dotes artísticos, escreveu e desenhou assiduamente para as revistas do Seminário: Violetas dos alunos mais jovens e Murmúrios, revista do Seminário Maior – textos que podem ser apreciados no Anexo. Participou também ativamente no jornal mural Signum do Colégio Português de Roma, textos e desenhos a que foi negado acesso ao autor do livro.

A obra é constituída por duas partes: a primeira narra ao pormenor e com grande profusão de anotações, referências históricas e jornalísticas, testemunhos orais e escritos e fotografias, a história da vida familiar, estudantil e eclesiástica e a morte por tristeza do jovem seminarista que, apesar do seu currículo académico invejável, foi expulso “da Pontifícia Universidade Gregoriana vendo assim o fim abrupto do seu tão desejado percurso clerical”.

A segunda parte, o Anexo (pp. 191-308) preenche-se com belos textos de JPL que representam a sua magnífica escrita desde os seus ingénuos treze anos aos inquietos e desiludidos 22. A esta parte chamaria eu “um escritor revela-se” dada a qualidade da sua escrita, o conhecimento profundo da nossa Língua, a nível vocabular, sintático, linguístico, semântico, expressivo, estilístico: poético. Sempre na defesa dos mais fracos e dos oprimidos, mas sem alguma vez descrer da bondade de Deus (e do regime) são reflexões filosóficas, que sociologicamente muito nos dizem do Portugal dos anos 40/50 escritas por alguém de vasta cultura no que toca à História, à Filosofia, à Arte.

Talvez por isso e por se tratar de alguém de grande visão tenha sido liminarmente impedido de completar a sua carreira eclesiástica, o que lhe provocou a morte. É que quando chega a Roma e visita as Catacumbas, escreve sentido: “É preciso talvez ir ao subsolo de Roma para encontrar a Cristo. Lá é que ele está. Cá por cima não…” Não lhe perdoaram a boa-fé…