Opinião
Letras | A distância, de Tiago Rodrigues
O livro é já por si, bastante ilustrativo do que poderia ser um mundo distópico, e não tão longe do nosso quotidiano. A beleza assustadora duma realidade já tão próxima da nossa, em que o futuro é já aqui, e não tão vistoso ou até desejado
Este que é o livro de mais uma peça de Tiago Rodrigues, encenador, actor, e director artístico do conceituado Festival de Avignon, com obras de profundo sentido social e filosófico, e das quais se destaca Catarina e a Beleza de Matar Fascistas.
O livro é já por si, bastante ilustrativo do que poderia ser um mundo distópico, e não tão longe do nosso quotidiano. A beleza assustadora duma realidade já tão próxima da nossa, em que o futuro é já aqui, e não tão vistoso ou até desejado.
Ali tenta contactar a filha. Na impossibilidade de resposta, começa a assustar-se com a distância. Aquela que por várias agruras de vida, começou a alargar-se entre eles. O medo de a perder, como teve quase no mar. Era pequena e audaz. Nada mudou. Agora será uma “Esquecida”, do grupo de expedição a Marte, que colonizará este e outros planetas. Amina, reacta comunicações. São agora dois mundos diferentes, separados por milhões de quilómetros.
Ao longo do novo diálogo, correm contra o tempo, entre conhecerem-se de novo, e o esquecimento que prevalecerá na equipa que explora o espaço. O mundo moderno de apenas alguns privilegiados, e que quer afastar-se do mundo clássico que agora sofre de cataclismos climáticos e onde a pobreza e diferenças, são maiores. Um mundo que definha, mas que ainda se lembra do cheiro do mar, que tem sabor como no tomate (ligeiramente doce e amargo) ou da liberdade. Um mundo que esquece mas que inventa do outro lado do sistema solar, o sabor a azeite contudo sem tomate para acompanhar.
A perda da mulher e mãe que distanciou e que na música de Caetano Veloso chama de volta a saudade. “O amor constante” que apesar da distância, agora cresce. Mas em contra-relógio a memória perde-se. O futuro está a chegar, e o passado ficará na memória de quem se lembra.