Opinião
Leiria almorávida
Em 1131 Afonso Henriques instala-se em Coimbra, posicionando-se no limite da área até então controlada pelos “mouros” e baseando a partir daí as suas incursões para sul
Há alguns meses fui desafiado a voltar às paisagens africanas por onde andei nas duas primeiras décadas do séc. XXI. Algures nos confins do noroeste africano, entre poços, gado e religião, continua a valorizar-se a herança do movimento Almorávida.
Foi esse o motivo/desculpa para os colegas me chamarem outra vez para aquelas paragens. Eles sabem que tenho passado mais tempo por Leiria, e foi esse outro dos elementos que os levou a convidarem-me: que herança, vestígios, ou representação, é hoje feita dos últimos guardiões do islão no extremo ocidental do al-Andaluz?
O desenvolvimento do reino de Portugal dá-se por meados do século XII, com os feitos de armas de Dom Afonso Henriques, filho do ilustre cruzado Henrique de Borgonha.
Em 1131 Afonso Henriques instala-se em Coimbra, posicionando-se no limite da área até então controlada pelos “mouros” e baseando a partir daí as suas incursões para sul.
A designação genérica de “mouros” / muçulmanos esconde a diversidade de populações, de programas políticos, ou as distintas leituras teológicas propostas por diferentes grupos ao longo de séculos de presença na Península Ibérica.
Sendo que nesta fase crucial da afirmação do que viria a ser Portugal eram os saarianos Almorávidas quem directamente enfrentava os cruzados.
As linhas de demarcação entre Soure, Montemor e Pombal são móveis, pelo menos até à tomada cristã de Leiria em 1145 (pouco antes de Lisboa e Santarém passarem também a incluir-se nos domínios de Afonso Henriques).
Estranha-se que estas décadas decisivas tenham sido alvo de tão esparso interesse, justificado talvez na debilidade das instituições académicas portuguesas, ou pela evidente monumentalidade e importância de outros territórios do al-Andaluz.
Note-se que nem a febre orientalista do século XIX conseguiu trazer à luz maior conhecimento ou contexto sobre estes radicais “povos do deserto”, que continuam a ser geralmente assinalados como “os causadores do declínio de uma ilustre cultura andaluza”.
Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990