Opinião

Cinema e TV | Isto é uma coisa a ver: Avatar - O Caminho da Água

16 jul 2023 09:51

Cameron mantém uma clara ambiguidade. Se a mensagem inicial do filme é a de que guerra apenas gera guerra e que nada de bom resulta do ódio, o final parece querer mostrar-nos que o único bom humano é o humano morto

Avatar: O Caminho da Água, de James Cameron, é a sequela de Avatar, realizado em 2009. Neste novo filme, o espectador regressa a Pandora, o planeta criado por Cameron, dez anos depois para reecontrar os Na’vi, Jake Scully (Sam Worthington) e Neytiri (Zoe Saldana), agora líderes da tribo Omaticaya com uma família constituída por cinco crianças: Lo'ak, Tuktirey e Neteyam, Kiri e o humano Spider.

O filme retoma o conflito que opõe humanos exploradores dos recursos de Pandora e a espécie habitante do planeta, dando continuidade à construção visual do universo imaginado por Cameron, com o detalhe e beleza que dois mil milhões de dólares e três horas de filme permitem.

Desta vez, Pandora tem para oferecer aos humanos o soro da eterna juventude, extraído do cérebro de uma espécie marinha altamente inteligente: os tulkun. No entanto, mais do que na exploração ou no conflito entre Scully e o Coronel Miles, o filme centra-se no conjunto complexo de emoções que se sente durante a adolescência: da sensação de não pertença e anormalidade à rivalidade entre irmãos, passando pela necessidade de aprovação dos pais, pela rebeldia, desobediência, culpa e medo.

Neste filme, como noutros anteriores, Cameron assume a família como núcleo estruturante da narrativa e parece querer dar-nos lições sobre como educar teenagers com mão firme e protetora, sejam eles humanos ou alienígenas. Lembrem-se os filmes Exterminador Implacável 2, de 1991, em que Linda Hamilton e Arnold Schwarzenegger se constituem como família para proteger o jovem e rebelde John Connor, ou ainda Aliens – O Reencontro Final, em que Sigourney Weaver e Michael Biehn salvam Carrie, a criança órfã encontrada no planeta LV426.

A comparação de Avatar com Aliens, realizado em 1986, pode levar-nos mais longe. Qualquer deles se passa num futuro longínquo e num planeta distante que dispõe de um recurso que os humanos desejam, e têm Sigourney Weaver no elenco. Em todos, a mulher é retratada como igual ou superior ao homem, mas a força vem-lhe da necessidade de defender a família, concretamente os filhos. No entanto, as semelhanças acabam aí. Em 1986, Cameron retratava a espécie alienígena como o radicalmente outro, com o qual não há qualquer possibilidade de comunicação ou entendimento, como o não humano e, por isso, inimigo; o planeta de Aliens é LV426, um planeta com uma designação alfanumérica, árido e escuro, deserto e assustador, à imagem do que a Terra poderá vir a ser; face ao inimigo alienígena, é no poder militar que reside a esperança da humanidade, e a guerra é essencial para a sua sobrevivência.

Várias décadas depois, Cameron apresenta uma visão radicalmente diferente da alteridade: em Avatar, a espécie alienígena é antropomorfizada, inteligente, sensível e intuitiva; Pandora é um planeta luxuriante, rico, vivo, exótico. Aproxima-se, não do que a Terra será, mas do que a Terra poderá ter sido. Natureza e habitantes estão ligados por uma inteligência única. O inimigo já não é o alien, mas o humano, personificado em Miles, em quem se fundem poder militar, interesses económicos e desejo de vingança. Apenas em relação à guerra, Cameron mantém uma clara ambiguidade. Se a mensagem inicial do filme é a de que guerra apenas gera guerra e que nada de bom resulta do ódio, o final parece querer mostrar-nos que o único bom humano é o humano morto, invertendo uma das famosas quotes de Aliens em que se afirma que the only good alien is a dead alien. Mas, na linha narrativa deixada em aberto, Avatar 3 poderá mostrar que até o humano pode encontrar redenção pela via do amor. Não no amor romântico, mas no amor que nos liga àquilo que definimos como família.