Opinião

Dicionário Improvisado XLV

9 abr 2026 08:00

Impressões

Chocolate

Todos os dias o idoso comia um chocolate mais ou menos à hora do pôr-do-sol.

Um pequeno chocolate de embalagem vermelha, com nove quadradinhos.

Sentava-se na sala de estar do lar, junto a uma janela; olhava lá para fora, fixando o olhar em algo indefinido ou em nada.

Depois, abria a embalagem com vagar e comia sem pressa, saboreando.

Por vezes, fechava os olhos; por vezes, chorava.

Ninguém o incomodava durante aquele ritual; claro que comer um chocolate diariamente não era saudável, mas já estava numa idade em que não fazia grande diferença.

E toda a gente sabia que aquele ritual representava um regresso ao passado, à infância; uma despedida.

A reprodução de uma memória antiga: a tarde em que o seu pai lhe dera um chocolate idêntico e ele o comera à beira da janela, olhando para o jardim enquanto os pais conversavam na cozinha.

O sol descia lá fora, os pássaros celebravam ruidosamente o fim do dia.

Ouviu a mãe rir sete vezes, e o pai duas; uma risada por cada quadradinho de chocolate.

No dia seguinte, ambos morreriam num acidente.

Irmandade

No dia em que o filho nasceu, o pai plantou uma árvore no jardim.

A sua ideia era que crescessem juntos, criança e árvore; em harmonia e cumplicidade.

E assim foi. Desde muito cedo que o menino manteve uma relação especial com a sua árvore; uma relação que foi evoluindo para uma irmandade não declarada, mas concreta.

O menino cresceu, e de repente era adulto; aprendeu que era necessário ser discreto quanto aos seus sentimentos, quanto ao que revelava de si.

As pessoas que o rodeavam tinham uma necessidade infinita de compreender e explicar tudo o que ouviam; e aquilo que não conseguiam compreender nem explicar era descartado como irracional; estúpido; loucura.

Foi por isso que nunca contou a ninguém que considerava a árvore como uma irmã gémea.

Nunca contou a ninguém que, tal como sempre acontece com os irmãos gémeos, havia entre si e a árvore um elo subtil e inexplicável, espiritual, que lhes permitia ter um conhecimento íntimo do outro.

Foi por isso que — muitos anos passados — soube que a árvore se aproximava da sua morte; sem revolta nem ressentimento, pois tivera uma vida feliz.

Também sabia (tinham tido essa conversa muito cedo, ainda na infância) que a árvore desejava morrer à beira do mar.

Tratou de tudo com serenidade, mas resolução; foi um processo caro e complexo, especialmente por causa das autorizações e licenças necessárias; mas nunca hesitou — apesar de ouvir constantes "irracional", "estúpido", "loucura".

Até que se cumpriu o desígnio de ambos e a transplantação foi feita.

Todos os dias vinha ao fim da tarde até à praia e juntava-se à árvore na sua nova casa; viam o pôr-do-sol juntos, aguardavam o anoitecer e o aparecimento das primeiras estrelas; nunca se cansavam da melodia do oceano.

Mesmo depois de sentir que a árvore já não estava viva, continuou a vir durante muitos dias.