Opinião
Deixa-me estar calado | A Nazaré não acaba na praia
O Caminho da Nazaré já existe e é conhecido. Acredito, no entanto, que merece maior divulgação. Mas não é preciso acreditar em milagres para fazer estes caminhos. Eu próprio encontro neles matéria para o meu trabalho artístico. Outros encontrarão o gosto pelo exercício físico, pela natureza, pela gastronomia ou pela descoberta do património
Depois de percorrer o Caminho do Tejo, estou agora a fazer o Caminho da Nazaré, integrado no projecto artístico que decidi desenvolver a partir da experiência dos Caminhos de Fátima. Trago comigo o olhar de quem gosta de descobrir os lugares sem pressa, de reparar no que tantas vezes fica fora do enquadramento e de transformar essas descobertas em arte.
A Nazaré é inevitavelmente o mar, as ondas gigantes, os barcos e as sete saias. Mas, à medida que me aproximo da sua história, descubro outra dimensão: a dos peregrinos, das promessas e de uma devoção que atravessa séculos.
Nos séculos XVII e XVIII, o Santuário de Nossa Senhora da Nazaré era um dos grandes destinos de peregrinação em Portugal. Vinham pessoas de várias regiões, atraídas pela fama dos milagres e pelas festas religiosas. A Nazaré era um lugar para onde se caminhava, movido pela fé, pela esperança ou pela necessidade de encontrar alguma coisa que nem sempre sabemos explicar.
O Caminho da Nazaré já existe e é conhecido. Acredito, no entanto, que merece maior divulgação e que pode afirmar-se como mais uma oferta turística da Nazaré e de toda a nossa região. Ao percorrê-lo, penso também no Reguengo do Fetal, outrora ponto de passagem frequente de peregrinos e lugar de forte tradição mariana, ligado a Nossa Senhora do Fetal.
Essa ligação merece ser recuperada e valorizada. A passagem pelo Reguengo do Fetal pode reforçar o triângulo de devoção entre Nazaré, Reguengo do Fetal e Fátima, aproximando património, memória e comunidades que partilham uma história religiosa.
Mas não é preciso acreditar em milagres para fazer estes caminhos. Eu próprio encontro neles matéria para o meu trabalho artístico: paisagens, rostos, histórias, pormenores e lugares que pedem tempo para serem observados. Outros encontrarão o gosto pelo exercício físico, pela natureza, pela gastronomia ou pela descoberta do património. A fé pode ser o ponto de partida, mas não tem de ser a condição de chegada.
Vejo nestes percursos uma oportunidade para dinamizar o turismo, valorizar as localidades e dar vida ao comércio e à restauração. Para isso, é necessário investir na sinalização, na conservação e, sobretudo, na divulgação e articulação dos itinerários.
A Nazaré tem muito mais para oferecer do que aquilo que cabe numa fotografia de ondas gigantes. Estes caminhos podem ajudar a mostrá-lo. E, pelo que vou descobrindo, vale a pena dar-lhes espaço para crescer.