Opinião
Decência
A decência funciona, pois, como um sustentáculo invisível para a confiança mútua, sem a qual nenhuma sociedade se consegue manter saudável
A decência é o atributo que mais prezo nas pessoas porque sintetiza um conjunto de valores alicerçados em princípios e padrões comportamentais que honram a dignidade humana através do respeito, honestidade, empatia, responsabilidade e sentido de justiça.
Ser decente é agir de forma coerente com fundamentos que reconhecem o outro como alguém digno de consideração, independentemente de diferenças sociais, culturais, políticas ou ideológicas, com exceção, naturalmente, para supremacistas e racistas.
No plano individual, a decência manifesta-se dizendo a verdade, cumprindo compromissos, tratando os outros com respeito, reconhecendo erros e recusando tirar vantagem indevida de situações ou de pessoas.
No plano social e institucional revela-se na transparência, na ética pública, no respeito pelas leis e na busca sincera de justiça e equidade.
A decência funciona, pois, como um sustentáculo invisível para a confiança mútua, sem a qual nenhuma sociedade se consegue manter saudável.
A delapidação continua da decência no mundo, com os criminosos Putin, Trump e Netanyahu a sentenciarem-lhe um final precipitado, é secundado por uma profunda falta de coragem, firmeza e retidão dos nossos líderes que, incapazes de os contrariar, se curvam diante dos seus caprichos.
A indiferença perante o sofrimento alheio, a normalização da mentira, da violência verbal e da imposição do mais forte ou do mais armado só são toleráveis para quem é eticamente malformado, covarde, vil e egoísta.
Sei que por estes dias não é particularmente popular clamar por decência, verticalidade, nobreza de espírito, compaixão, solidariedade ou empatia — valores que até há pouco faziam dos homens verdadeiramente Homens.
A avalanche reacionária, o revanchismo fascista, as guerras em curso e aquelas que infelizmente se anunciam, alimentadas por aspirações imperialistas e pelos seus séquitos, parecem formar uma torrente quase invencível.
Mas é precisamente agora que importa fazer ouvir as vozes sem medo, as vozes dos que não se acovardam, dos que não mudam consoante os interesses, dos que morrerão de pé.
Façamo-las escutar quantas vezes forem necessárias, mesmo quando os que não as querem ouvir balbuciarem um vazio “lá estão estes gajos outra vez”. Em nome da decência, até que a voz nos doa.