Opinião

“Coisas míudas” fazem pensar...

14 jan 2016 00:00

Afinal, a diferença entre “prémio” e “incentivo” que também merece uma forte reflexão na aplicação dos dinheiros públicos. Coisas miúdas, mas que fazem pensar.

Meu Caro Zé,

Três notícias do fim de semana, aparentemente sem qualquer ligação, deram-me que pensar, designadamente porque mostram que há uma dessincronização entre o pensamento e a vivência social hoje em dia (conforme mostra brilhantemente o filósofo alemão Harmut Rosa no seu livro Accélération – Une critique social du temps (tradução francesa), sem embargo de o melhor de cada um de nós vir, de vez em quando, ao de cima, superando essa dessincronização.

As duas primeiras, em particular, têm a ver com a discriminação permanente que grassa no seio da sociedade, sem dela nos darmos conta, incorporando a utilização de recursos públicos para benefício privado ou de concentração do poder público ou privado. Assim, a primeira das notícias tem a ver com o “salvamento” de montanhistas e caminhantes na Serra do Gerês que envolveram 70 bombeiros e 22 viaturas!

Foi um acto heróico e de grande sucesso, badalado por todos os lados! Claro que sim! Ainda bem que essas vidas foram salvas! Uma vida é uma vida sempre! Mas, atenção! Não havia claros avisos da meteorologia, de grande instabilidade do tempo? é legítimo que os recursos que todos pagamos estejam disponíveis para atender as aventuras que, normalmente, os mais abastados se permitem correr? Quando há tantas restrições orçamentais, como é que os recursos públicos são usados?

Não estou a dizer, atenção, que se não socorressem as pessoas em perigo, mas exige-se uma reflexão e uma ponderação sobre quem, em última análise, usufrui dos recursos públicos que todos suportamos. E essa reflexão está por fazer...

A segunda notícia vem do reino do futebol e é construída por mim. Na Liga de Honra, neste fim de semana, todas as equipas B de clubes que militam na Liga NOS, incluindo aqui os “B” do Porto, Sporting e Benfica (por ordem de classificação, nessa Liga de Honra) foram claramente derrotados por equipas de clubes “menores” de várias zonas do país (de Trás-os- Montes ao Algarve até aos Açores). E, no entanto, essas equipas “B” dos “grandes” têm custos que os outros não têm, absorvem tantas vezes as “promessas” dos outros clubes e concentram em si todo o “poder” futebolístico, com o beneplácito e o patrocínio de todos os meios de comunicação, dos apoios das empresas e até dos cidadãos que querem sempre ser do “clube” que ganha. Leiria, creio, sabe bem disso! Não será que todos falamos contra os “monopólios” e somos quem, alegremente, os sustentamos? A terceira é a “pedra no charco”.

O motard português Paulo Gonçalves, liderava o Rally Dakar quando encontrou um outro piloto que sofreu um desastre. Indiferente ao tempo perdido (e o avanço para os seguidores na classificação era curto) largou a sua moto e socorreu, de imediato, o colega, acompanhando-o até à chegada do socorro médico. O mais importante é ter afirmado que nem por um momento hesitou sobre o que havia de fazer. Bravo! E, no mesmo tom, a organização decidiu creditá-lo com um tempo igual ao que ele perdeu no socorro ao colega. Um prémio, sim, verdadeiro, porque não conquistado com a mira de o obter. Afinal, a diferença entre “prémio” e “incentivo” que também merece uma forte reflexão na aplicação dos dinheiros públicos. Coisas miúdas, mas que fazem pensar.

Até sempre,

*Professor universitário