Opinião

Cinema | O cinema deve calar-se?

23 mar 2026 10:00

Espera-se que os filmes “digam algo”, que tomem partido, que sejam mais do que narrativas. Que sejam declarações. Mas será isso sempre desejável?

Na noite dos Óscares, como em tantas outras, os filmes não chegam sozinhos. Sobem ao palco rodeados de palavras, discursos, causas, declarações, que, por momentos, parecem falar mais alto do que as próprias imagens. Há aplausos que não são apenas para o que se viu, mas para o que se disse. E, nesse ruído, o cinema transforma-se em algo maior do que si mesmo. Ou talvez em algo diferente.

Wim Wenders, aclamado realizador europeu, defendeu recentemente que os cineastas deveriam “manter-se afastados da política”. Não porque o cinema seja irrelevante, pelo contrário. Segundo ele, "pode mudar o mundo", mas não de forma política. A afirmação caiu como uma pedra num lago já agitado. Num festival historicamente marcado pelo debate ideológico, a ideia de um cinema como “contrapeso” à política, e não participante, soou, para muitos, a recuo. Para outros, a lucidez.

A polémica não tardou. Houve protestos, desistências, cartas abertas. E, de repente, o que parecia uma reflexão abstrata tornou-se um sintoma de algo maior: uma divisão crescente sobre o papel do cinema no mundo contemporâneo.

Talvez o momento não seja inocente. Vivemos uma época em que tudo parece exigir posicionamento. As redes sociais amplificam, simplificam e, muitas vezes, radicalizam qualquer discurso. O cinema, enquanto arte pública, não escapa a essa pressão. Espera-se que os filmes “digam algo”, que tomem partido, que sejam mais do que narrativas. Que sejam declarações. Mas será isso sempre desejável?

Ao olharmos para os Óscares, percebemos que Hollywood continua confortável nesse registo (apesar de errar em muitos outros). A indústria habituou-se a integrar uma certa política no espetáculo, a fazer dela parte do ritual. Há uma coreografia quase previsível: a causa certa, no momento certo, dita com a emoção certa. E, no entanto, essa previsibilidade levanta uma dúvida incómoda: estaremos perante uma verdadeira intervenção ou apenas um novo código de linguagem, uma convenção?

É aqui que a provocação de Wenders ganha força. Não tanto pelo que diz, mas pelo que expõe. A possibilidade de que o cinema político (no sentido mais direto, mais declarativo) possa estar a esgotar-se. Não por falta de temas, mas por excesso de fórmula.

Isso não significa que o cinema possa ou deva ser neutro. Essa ideia é, em si mesma, ilusória. Toda a escolha estética é também uma escolha ética. Toda a história contada implica um ponto de vista. Mesmo o silêncio é uma forma de posicionamento. O cinema nunca esteve, nem estará, fora da política.Mas há diferentes formas de a habitar.

Há o cinema que proclama e o cinema que sugere. O que denuncia e o que observa. O que levanta a voz e o que sussurra. Talvez o que Wenders proponha, consciente ou não, seja um regresso a esse segundo espaço: um cinema menos interessado em dizer ao espectador o que pensar e mais empenhado em fazê-lo sentir, duvidar, questionar.

Ainda assim, a reação às suas palavras mostra como essa posição é difícil de sustentar. Porque, num contexto de conflitos abertos e feridas expostas, pedir distância pode soar a indiferença. E isso é mesmo muito perigoso.

O cinema encontra-se, assim, num impasse. Entre a urgência de intervir e o risco de se tornar previsível. Entre a necessidade de falar e o perigo de dizer sempre o mesmo.

Talvez a pergunta não seja se o cinema deve ou não ser político. Talvez nunca tenha sido essa a questão. A verdadeira pergunta é outra: como pode o cinema continuar a ser relevante, não apenas no que diz, mas na forma como nos obriga a olhar?

Porque, no fim, é isso que permanece. Não o discurso mais aplaudido da noite, nem a frase mais partilhada no dia seguinte. Mas aquele momento, inesperado e silencioso, em que um filme nos desarma e nos faz ver o mundo de maneira diferente. E isso, político ou não, continua a ser profundamente transformador.