Opinião
Cinema | O cinema de algoritmo
Se colocarmos de lado o cinema de autor, aquele que muitas vezes nem sequer passa nas salas de cinema (ou que passa, mas que leva muito poucas pessoas às salas), quando é que o cinema comercial não copiou, consistentemente, fórmulas de outros filmes que foram sucessos de bilheteira?
Nos últimos tempos, indo na onda da crescente introdução da inteligência artificial no nosso dia a dia e, consequentemente, na forma como nos apercebemos que os conteúdos chegam até nós, têm saltitado como pipocas textos sobre uma chamada “algoritmização do cinema”. Ou seja, a crescente integração de inteligência artificial e algoritmos de dados em todas as etapas da indústria cinematográfica, desde a concepção e produção, até à distribuição e consumo.
Pois bem, nas várias opiniões que tenho lido, esta ideia surge como infernal. Mais. Uma espécie de fenómeno que transforma o cinema de uma arte puramente criativa, para uma indústria orientada por dados, focada na personalização da experiência do espectador e na maximização do retorno financeiro.
Visto desse ponto de vista, não deixa de haver razão neste alarmismo. Pegar numa arte criativa e reduzi-la ao capital que ela gera, parece uma coisa que pode levar a uma espécie de acefalização da sociedade, uma vez que, apenas se passa a criar conteúdo que se sabe que vai gerar lucro. No fundo, todos sabemos que a arte é um dos principais meios de criação de massa crítica. Se pegarmos em conteúdos artísticos e apenas distribuirmos aqueles que a maior parte das pessoas gosta, tendo como base o seu consumo habitual, chegamos à chamada padronização criativa, onde existe o risco verdadeiro de que a dependência excessiva de algoritmos leve a produções repetitivas, focadas apenas em métricas.
Mas deixo no ar uma questão: quando é que não o foi?
Já em 1930, Theodor Adorno e Max Horkheimer, da Escola de Frankfurt, tinham desenvolvido o conceito de “Indústria Cultural” para descrever a transformação da cultura em mercadoria produzida em massa para o consumo, com o objectivo de moldar comportamentos e manter a dominação social.
Se colocarmos de lado o cinema de autor, aquele que muitas vezes nem sequer passa nas salas de cinema (ou que passa, mas que leva muito poucas pessoas às salas), quando é que o cinema comercial não copiou, consistentemente, fórmulas de outros filmes que foram sucessos de bilheteira? A diferença, agora, é o método. A plataforma. E apenas isto faz com que toda a informação circule de forma muito mais célere, fazendo com que sintamos, mais rapidamente, estas mudanças.
Resultado: a grande indústria está a focar-se no marketing para ser visto. Antes já o fazia, mas agora é gigante, atroz e a entrar nas várias vertentes da vida social. Todos querem ser os mais vistos e, neste momento, sabem que só terão esse spotlight durante um pequeno período de tempo, portanto há que “dar tudo”. E, nisto, tudo o que é “de autor” e “sem métrica”, se perde. Porque não há intervalo. Se tudo é tão barulhento e rápido, onde conseguimos inserir cinema mais alternativo? Quando é que ele tem a oportunidade de ser visto se está, constantemente, a ser coberto pelas cortinas do comercial que não se calam?
Os tempos estão mesmo difíceis para os sonhadores. E, por isso, é que os investimentos dos governos são, agora, mais importantes do que nunca. Se estes estiverem interessados em eleitores de pensamento livre e espírito crítico (claro está).