Opinião
Cinema | A propósito de uma terra que arde devagar
Olha Zhurba mostra-nos (e acima de tudo dá-nos espaço para observar ) o que vai sendo consumindo enquanto é atravessado pelo conflito: o território, as infâncias perdidas, a sombra das ausências, o espetáculo das almas em carne-viva
Alguns esperam que, naturalmente, um filme documental sobre a guerra se debruce sobre as imagens que os telejornais não exibem. Ou porque não servem o propósito de angariar audiências ou porque são demasiado violentas para a hora do jantar. Mais ainda num conflito como o da Ucrânia, cuja duração ultrapassa já a da I Guerra Mundial. Olha Zhurba, realizadora ucraniana, responde, de alguma forma, a esta ideia, mas não exatamente da forma que se esperaria. Não nos mostra o combate, a fúria dos projéteis, o heroísmo dos soldados. Mostra-nos (e acima de tudo dá-nos espaço para observar ) o que vai sendo consumindo enquanto é atravessado pelo conflito: o território, as infâncias perdidas, a sombra das ausências, o espetáculo das almas em carne-viva.
Canções de Uma Terra em Lume Brando (Songs of Slow Burning Earth, 2024) é um título que engana. A música destas canções é um zumbido lúgubre, o som de fundo de uma nação em estado de exceção permanente, uma espécie de ruído branco omnipresente até ser obliterado pelo peso do silêncio.
Resultado de dois anos de filmagens, umas vezes perto da linha da frente, outras em zonas mais afastadas do conflito bélico, o resultado pode comparar-se a um diário audiovisual da normalização do apocalipse: filas intermináveis de automóveis, estações de comboio superlotadas onde famílias se separam com a eficiência de uma linha de montagem, crianças que brincam aos soldados num pátio enquanto são sobrevoadas por caças. Mas a verdadeira força do filme está naquilo que Zhurba não filma. Há um código de ética rigoroso em ação: nunca vemos cadáveres. A realizadora prefere filmar a luz a entrar numa morgue, o sol que insiste em bater nas paredes brancas enquanto, atrás de um vidro fosco, mulheres aguardam para reconhecer os corpos dos seus homens. Uma opção que a autora explica, em entrevista: “Essa luz era a única coisa bonita naquela sala”. E é esta tensão mal-resolvida, entre o horror e a beleza, entre a urgência do testemunho e a contenção da forma, que torna o filme tão perturbador.
Zhurba transforma o trauma num ritual partilhado, e fá-lo com uma disciplina quase ascética. Esta abordagem é, ela própria, uma forma de resistência. Num mundo onde os algoritmos e o imediatismo nos empurram para o choque fácil, Canções de Uma Terra Em Lume Brando exige paciência, exige observar, exige que se sinta o peso de cada segundo. Exige ao espectador que demonstre coragem, e que ceda o seu tempo e atenção. É algo cada vez mais raro de conseguir e de obter, mas é também o que torna este filme tão especial e precioso.
O futuro, na Ucrânia de Zhurba, é uma ideia ténue. Mas ainda assim persiste. E isso, talvez, seja o mais próximo da esperança que se pode reclamar.