Opinião
Cinema e TV | Isto é uma coisa a ver: Heróis Inseparáveis (Heart of The Beast)
A mensagem de que o amor pode sobreviver à crueldade e vencer o ódio antecipa a grande história de sobrevivência que virá logo a seguir, quando James e Odin partem para fugir à tempestade e a avioneta se despenha devido ao ataque cardíaco que James sofre durante o voo. O coração do homem falha, mas o homem não
O filme Heart of The Beast (Heróis Inseparáveis) é um drama de sobrevivência realizado por David Ayer e protagonizado por Brad Pitt. Conta ainda com a breve presença de J. K. Simmons (Terence Fletcher em Whiplash), e da jovem canadiana Anne Lambe, que protagoniza a personagem que abre e encerra o filme, passando-se a ação de Heróis Inseparáveis durante o flashback de uma semana que começa a seguir ao genérico inicial e que permite compreender como é que um cão com uma prótese aparece numa estrada perdida do Alasca.
A semana começa na viagem de avioneta para um lago isolado feita por James Belmont, Sargento-Mor das Forças Especiais, e Odin (nome do rei dos deuses da mitologia nórdica), o cão de combate, ambos reformados, com diversas marcas físicas e traumas psicológicos resultantes das guerras que travaram overseas, em territórios não nomeados. Esta viagem inicial serve para estabelecer o laço que existe entre eles e afirmar a capacidade de sobrevivência da dupla na natureza, indiciando o desajustamento de Belmont em relação à vida em sociedade e ao convívio com outros humanos.
O contacto acaba por acontecer com o aparecimento de Watkins (J. J. Simmnons), antigo dono de uma companhia de exploração de minério que decide isolar-se na natureza depois de se cansar dessa outra guerra, também ela dura e cheia de personagens duvidosas, que acontece no mundo das grandes companhias capitalistas. A silenciosa partida de Watkins, ao amanhecer, numa canoa ornamentada com o crânio de um veado, tem uma ressonância simbólica, fazendo lembrar Caronte, o barqueiro da mitologia grega que faz o transporte das almas para o submundo, funcionando como um presságio de morte.
Mas Watkins tem uma importância e mensagem mais claras. Ele deixa a James um livro com uma passagem destacada que dedica a Odin, em que refere que este vivera o pior que os seres humanos lhe podiam fazer, conhecera a crueldade dos homens, mas havia sobrevivido. E, ainda assim, o amor pelo homem tinha fundado raízes no seu coração.
A mensagem de que o amor pode sobreviver à crueldade e vencer o ódio antecipa a grande história de sobrevivência que virá logo a seguir, quando James e Odin partem para fugir à tempestade e a avioneta se despenha devido ao ataque cardíaco que James sofre durante o voo. O coração do homem falha, mas o homem não. Sobrevive para trazer Odin á vida, travando ambos daí em diante uma intensa luta contra elementos e animais, contra uma natureza hostil, percorrendo, por terra acidentada e perigosa, os 90 km que os separam da estrada em que Odin será encontrado.
Brad Pitt traz-nos a dimensão humana da coragem, do amor, da resistência, do sofrimento, do sacrifício pelo outro, numa representação fisicamente desafiante que ele desempenha de forma exemplar. Mas a melhor performance será, talvez, a de Uber, o pastor alemão que faz de Odin e que consegue, sem linguagem articulada, transmitir-nos, ao ponto da comoção, a dedicação, fidelidade, carinho e amor que sente pelo seu humano, companheiro de armas, dono e pai.
Encerrando o filme com a simbologia que o atravessa, David Ayer abre as portas de Valhala para o seu guerreiro com as imagens de uma aurora boreal, que se reflete no olhar de Odin enquanto este repousa a cabeça no peito do dono e vela pela sua viagem. Trata-se de um filme perante o qual é impossível não ficar comovido (pela mensagem e emoções que faz sentir, mas também pela beleza dos cenários e contenção da banda sonora, composta por Jared Michael Fry) e não concordar com a noção de que os cães são capazes de nos dar a conhecer a possibilidade de um amor incondicional e perene, um amor que talvez os humanos eles próprios não consigam sentir.