Opinião

#Bússolas

12 mar 2026 16:23

Há traumas que vão custar a passar e feridas expostas que levarão demasiado tempo a cicatrizar

O último mês e meio tem sido eternidade… foi avassaladora a forma como os acontecimentos não só no mundo, mas os de proximidade mexeram connosco, deixando a certeza de um trauma em cada um dos nossos e demais vizinhos. Mesmo depois de arrumar a casa ou de varrer o lixo para baixo do tapete, continua a ser muito difícil colocar tudo de novo no sítio, principalmente na cabeça e no coração, não só pela destruição, ou pela obliteração da memória, mas principalmente pelo senso de impotência face ao abandono… e todos nós sabemos como é difícil lidar com o abandono, motivo tamanho e que deixa marcas profundas para sempre… mesmo que se passe o resto da vida a fazer hipnose… e o medo sempre o medo… como dizia um amigo há dias “se precisares de ajuda é só assobiar, mas não assobies muito alto, que a malta anda toda traumatizada com os assobios”… E as árvores, as casas, as esplanadas, os pavilhões, as fábricas, e, e, e…

Quem não lida com esta “violência estrutrural” todos os dias talvez não consiga perceber, o que é olhar para o que já não existe, ou deslocar-se em carros remendados, telhados multicor, num patchwork de lonas, telhas, e materiais múltiplos, na rotina diária alterada, nas casas a que ainda não podemos voltar, enquanto vemos a nossa desmoronar à espera de um seguro cujo perito tarda em vir, no trabalho que intermitente vamos continuando, se houver estrada para andar e no nó que não se desata na garganta na cabeça e no coração.

Há traumas que vão custar a passar e feridas expostas que levarão demasiado tempo a cicatrizar, como quando temos diabetes e a crosta é sempre frágil… Mas, ainda assim houve, e esperamos todos que permaneça, abraços, solidariedade, entreajuda e esforço humanamente (im)possível e união, para re-começar, re-erguer, re-parar, re-aprender, re-ajudar. Gosto de me agarrar aos pinheiros novos, uns crianças, outros a “adolescer”, que continuam no mesmo lugar verdinhos e espevitados, e que não se deixaram levar pela tempestade, (ao caminhar entre a Marinha Grande e S.Pedro podem comprovar o que estou a dizer) generosamente plantados após os fogos de 2017, como que dizendo que ainda há esperança, e que mesmo que nada volte a ser como dantes, o caminho faz-se caminhando e passinho a passinho e numa expressão resignada e altruísta mesmo “à tuga”: Haja saúde! Que o resto faz-se!

Voltei ao Cardeal Tolentino e ao O Que É Amar Um País- O poder da esperança. O que é amar o nosso território, a nossa casa, as nossas memórias, os nossos? Diz-nos o poeta ao coração, que para recuperamos de um trauma são precisos alguns passos : acreditar que as coisas não voltam à forma que tinham antes, mas que importa reinventar, e que para a nova etapa há pelo menos três passos fundamentais: o primeiro será confiarmo-nos à memória do amor, dos pais, da família, dos amigos e das coisas belas…”acordar a memória do amor”; o segundo é a necessidade e o bem de contar as nossas histórias a alguém, e o terceiro será: se não tivermos a quem contar a nossa história, que possamos acordar dentro de nós, uma imagem de vida, uma imagem de beleza que possa servir-nos de bússola nesta viagem tormentosa.” E é isto: que nunca percamos a esperança e a bússola… mesmo quando nos vimos entregues a nós próprios!

Texto escrito segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico de 1990