Opinião
Artes visuais | Um conceito de arte mais lato
Ambos os movimentos partilhavam um cepticismo profundo do fetiche do mercado de arte em atribuir a categorizarão de arte, a obras singulares, feitas à mão pelo autor. Para os conceptuais e minimalistas a rebelião começava mesmo aí
Emergiram nos anos sessenta do século passado, dois movimentos artísticos que assaltaram as convenções herdadas da arte ocidental. Acrescentaram novas ideias e cada um deles desmontou um pilar diferente da tradição.
Os minimalistas despiram a pintura e a escultura até sobrar apenas o essencial, geralmente figuras geométricas estilizadas. Rejeitavam as metáforas, a criação de ilusões e a expressão pessoal do artista, e, favoreciam a utilização de materiais industriais e repetições. Procurem por exemplo as pinturas de Sol Lewitt (EUA, 1928-2007) ou as esculturas de Richard Serra (EUA, 1938-2024).
Enquanto o minimalista ainda dava primazia ao objecto de arte, a arte conceptual levou a questão a dar um passo maior. A ideia só por si, era a obra de arte, e o objecto propriamente dito, se existisse, como poderia nem existir, era meramente acidental e, secundário ou acessório.
Os artistas conceptuais questionavam e libertavam-se de ideias preconcebidas de beleza e destreza ou habilidade técnica. Veja-se por exemplo o trabalho de Marcel Duchamp (França, 1887-1968), que para muitos académicos e historiadores foi o mais influente artista do século vinte, ou as latas de Merda d’artista do autor italiano Piero Manzoni (1933-1963).
Ambos os movimentos partilhavam um cepticismo profundo do fetiche do mercado de arte em atribuir a categorizarão de arte, a obras singulares, feitas à mão pelo autor. Para os conceptuais e minimalistas a rebelião começava mesmo aí.
Trago à apreciação a obra "One and three chairs" (1965) do artista Joseph Kosuth (n. 1945). Consiste numa cadeira encostada á parede, com a sua representação fotográfica 1:1, do lado esquerdo, e uma ampliação da definição, escrita, da palavra cadeira, extraída dum dicionário.
Três versões da mesma coisa, o objecto, a sua representação e a sua materialização linguística. Qual delas é a cadeira?
Quando esta peça é exposta, não existe um ceder dos objectos que a obra reúne, antes é suposto repetir o mesmo processo de fotografar uma cadeira, e mostrá-la ladeada pela sua representação fotográfica 1:1, e pela definição da palavra cadeira. Ou seja, de singular e de feito pela mão do artista, não tem nada, ainda assim é arte.
O minimalista e a arte conceptual obrigam-nos a tornar o conceito de arte ainda mais lato do que ela já é.