Opinião

A princípio é simples, anda-se sozinho

12 mai 2026 06:41

Peito em brasa, nada permanece, como bem sabemos. Há que abrir espaço para sentir tudo e o seu contrário, na fragilidade da teia que também nós tecemos, meticulosos

A casa guarda os pertences no exacto lugar que lhes destinei. A ordem amorna o caos, o de dentro e o de fora. O relógio de parede, que era da avó, não atrasa um minuto que seja, ainda que lhe pesem 100 anos no badalo polido. O candeeiro acende com a quantidade de lúmenes que eu escolhi, no tom de amarelo que achei casar bem comigo. Quadros e objectos foram chegando dentro de malas de viagem, pela mão de amores e em legados de herança, memórias felizes de pessoas próximas ou de lugares daqueles lá longe.

As plantas secam quando eu não as rego, a despensa exibe o meu desleixo e no frio não falta a cerveja de que eu gosto, ainda mais do que das outras. Há uma aranha que teceu fios laboriosos no canto que deixei de limpar, gosto de a ver ali. Vai ficar até que o gato lhe descubra a morada, nessas questões não interfiro porque o bairro dentro de portas é de todos os que chegaram e tomaram o espaço também para si. Com mais ou com menos patas. Com mais ou com menos marcas, no passar dolente das minhas horas aqui.

A música toca no volume que fizer falta para me levantar do chão, o de tábuas corridas ou o figurado que me amparou mais uma queda. O silêncio tanto pode ser escolha como desígnio de solidão, nunca sei como vai ser até se materializar numa das duas. Peito em brasa, nada permanece, como bem sabemos. Há que abrir espaço para sentir tudo e o seu contrário, na fragilidade da teia que também nós tecemos, meticulosos, usando a baba dos dias peganhentos e a saliva dos dias frescos, em igual medida.

Volto ao relógio da minha avó. Não atrasa um minuto que seja, mas bate um número de badaladas aleatório de cada vez que chega à hora certa. São cinco, marca cinco e bate seis. São duas, marca duas e bate quatro. São doze, marca doze e bate treze. Treze! É o horário em que atinge o apogeu das badaladas criativas, não sei onde vai buscar a bastarda da décima terceira. Não vinha no mecanismo, isso é certo. Fico fascinada e inquieta ao mesmo tempo, confesso que um relógio anarquista é coisa que não estava nos meus planos. Mas depois penso que o desafio à ordem estabelecida é necessário e, se a aranha pode, se o relógio pode, ah!, eu também devo poder. Sacudir a rotina cristalizada da escolha segura de quem escolhe só. E abrir o bairro dentro de portas ao caos efervescente das escolhas múltiplas, em que a última opção é “todas as anteriores”, aquele pleno de onde emergem as distopias amarfanhadas que nos fazem criar.

A princípio é simples, mas depois não é. Andar sozinho aprisiona-nos numa liberdade difícil de preterir. As badaladas trocadas são as certas, naquela casa são. Porque o relógio da minha avó trouxe o coração a bater descompassado, num compasso espantosamente acertado com o do meu próprio coração.