Editorial
A correr contra o tempo
Mais de quatro meses depois da tempestade, com o Verão à porta, a lenha no solo torna-se pasto para o fogo. Um barril de pólvora
Um amigo tem a frase mais clara que li sobre o efeito do vento na floresta durante a passagem da depressão Kristin pela região. “Caíram os pinheiros do meu avô, do meu pai, os meus e os que seriam dos meus filhos e netos”. Publicada na edição do JORNAL DE LEIRIA de 26 de Março, significa que a família dele há décadas que aplica, nas explorações que mantém e gere, o mesmo modelo de produção que o Estado seguia na Mata Nacional de Leiria até ao incêndio de 2017: talhões de idades diferentes, que permitem cortes regulares de madeira, e receita, todos os anos.
Desde a madrugada de 28 de Janeiro de 2026, a estratégia cai por terra. Literalmente. “Tudo o que tinha mais de 15 anos está no chão. É uma perda de 100%”. Solução? Começar outra vez, praticamente do zero. Reinvestir. Esperar anos até ao primeiro corte.
O desastre económico agravado por preços de venda entretanto esmagados pelo excesso de oferta no mercado traz outra ameaça: mais de quatro meses depois da tempestade, com o Verão à porta, a lenha no solo torna-se pasto para o fogo. Um barril de pólvora. “São milhares e milhares de hectares com um total desordenamento preocupante e alarmante”, admite o comandante sub-regional de Emergência e Protecção Civil de Leiria. Carlos Guerra avisa que este é um ano que “exige tolerância zero aos comportamentos de risco nos espaços rurais” e “aos incêndios causados por negligência humana”.
A propriedade dispersa agiganta a tarefa, falta gente para trabalhar e empresas disponíveis, só no concelho de Leiria, segundo o vereador Luís Lopes, 60% do território não está registado, ou seja, não se sabe de quem é.
A correr atrás do prejuízo, o Estado autoriza as autarquias a entrarem em zona privada e despeja 40 milhões de euros do PRR (destinados aos proprietários, através dos municípios) em cima do que já parece inviável. “Será impossível retirar todas as árvores que caíram, durante este ano”, reconheceu o ministro José Manuel Fernandes, logo em Março. Agora, com as temperaturas a rondar os 30 graus, esgota-se o tempo. Depois do primeiro reforço, em meados de Maio, decorre a fase Charlie, ainda com mais meios. No dia 1 de Julho, termina o prazo para limpeza de terrenos por particulares (alargado pelo Governo) e começa a fase mais crítica de vigilância e combate.
Já não importa saber se tudo o que podia ser feito foi feito. Importa prevenir, para que o céu não volte a cair-nos em cima da cabeça.