Opinião
A beleza do que é puro
Já em casa, dobrei com cuidado o pano indiano teso de sal, tecido por mãos castanhas que nunca sentiram mar, que nunca agarraram conchas nem pedras como estas que comprei na praia
Estendi um pano indiano grande, artesanal, tecido num labor comunitário de saberes antigos, conspurcados por corjas grotescas na disputa do padrão mais vistoso, oh how lovely, pelo preço de um café para levar e andar, na metrópole de onde não deviam ter saído. A cena mercantil, a toque de muitas poses para telemóveis estafados, tem a força de um jugo sobre aquelas mulheres puídas, de mãos deformadas e presença ausente. As fotos saturadas de cores primárias ao despique exibem, inevitavelmente, mais atrás ou mais ao lado, cães famintos, ossudos e em chaga. As criancinhas, oh how lovely, são recrutadas num puxão para enquadrar a miséria que fica linda quando iluminada por sorrisos brancos de latitudes prósperas. O pano grande que agora estendo foi o que sobrou do saque. Foi-me oferecido e fiquei para jantar na casa de barro que albergava o tear.
Estendi o pano indiano grande na areia da praia. Estendi-me. Ainda não tinha o corpo quente, ouço vozes de criança muito perto da minha cara. Abri os olhos e fitei os três rapazes pequenos com um balde na mão, cheio de pedras e conchas acabadas de escolher a dedo na maré vazia. Entre risinhos e toques de cotovelo que iam dando uns aos outros, apresentaram-me o seu negócio de venda ambulante. Uma a uma, foram-me explicadas as riscas, as cores e os contornos peculiares que tornavam cada concha extremamente valiosa e cada pedra uma oportunidade única na minha vida. Demoraram muito tempo, sentaram-se no meu pano e discorreram sobre o criterioso processo de curadoria que tinham levado a cabo, com esmero e foco absoluto na satisfação de clientes habituados ao melhor que a maré-baixa tem para oferecer, como seria certamente o meu caso. Alertaram-me para a escassez da oferta, uma vez que os pais já os esperavam com as sandes no toldo e, entretanto, a maré ia subindo, tragando no avanço as raridades que escaparam ao balde. Eu tinha sido contemplada, de entre as dezenas de potenciais interessados, com o privilégio de poder adquirir um lote único e irrepetível, que continha até um pequeno fóssil marinho. Porquê eu?, perguntei honrada. Riram-se mais alto, nervosos com o efeito de persuasão crescente que sentiram provocar na compradora. Por causa das cores do pano, achámos que gostavas de coisas bonitas.
Estendi o pano indiano grande num banco da praça. Sentei-me a olhar o afundanço lento do sol ao fundo, na esperança de não me escapar o raio verde, no segundo em que o último fio de laranja toca na linha de fundo azul. Durante muito tempo achei que era fábula de poetas, de marinheiros, pretexto para os amantes encostarem as cabecinhas e procurarem em silêncio o raio que parta tanto amor. Mas um dia vi. Ou então foi só questão de ter semicerrado os olhos com demasiada força e não ter ao lado o raio de um ombro onde pudesse encostar.
Já em casa, dobrei com cuidado o pano indiano teso de sal, tecido por mãos castanhas que nunca sentiram mar, que nunca agarraram conchas nem pedras como estas que comprei na praia. No fundo, vendem a mesma coisa lá do outro lado do mundo: a beleza do que é puro, do que existe para não nos deixar esquecer que, se nada mais existisse, seria sempre o bastante para nos fazer sentir um bocadinho felizes.