Viver

Teatro Chaby Pinheiro resiste ao mau tempo e chega aos 100 anos

6 fev 2026 11:18

Centenário da sala de espectáculos, uma jóia rara em Portugal, celebrado pelo Município da Nazaré com programa especial

teatro-chaby-pinheiro-resiste-ao-mau-tempo-e-chega-aos-100-anos
No interior, destaca-se a arte do pintor Frederico Ayres
Ricardo Graça

Nasceu com ambição máxima: sala de espectáculos digna dos artistas mais célebres no País.

Por iniciativa da Casa de Nossa Senhora da Nazaré, hoje Confraria, instituição que continua a ser proprietária e gestora do espaço, o Teatro Chaby Pinheiro, no Sítio da Nazaré, abriu portas a 5 de Fevereiro de 1926, inspirado no La Scala, de Milão.

Com planta em forma de ferradura, na fachada é impossível não reparar no rosto humano esculpido sobre a porta principal. Já no interior, em madeira, o pintor Frederico Ayres deixou frescos representando a tragédia grega e romana, um tecto decorado com motivos florais e a tela de boca de cena, em que se vê a figura de uma mulher com traje clássico.

O actor Chaby Pinheiro (nome carismático à época e personalidade nacional) liderou a inauguração com a companhia homónima e as peças Leão da Estrela e Conde Barão, mas, durante décadas, como local de ensaio e apresentação de inúmeras produções, a história do edifício não se conta sem os grupos amadores e o entretenimento mais popular, a par das elites e dos profissionais.

“Todas as pessoas da Nazaré que de alguma forma estão ligadas com as artes performativas já passaram pelo Chaby Pinheiro”, que, por outro lado, “sempre esteve aberto à população das escolas”, comenta Adelino Mota, do Município da Nazaré. “Portanto, faz parte da génese deste povo e tem de ser cada vez mais valorizado”, dado que “tem uma importância muito grande na vida cultural” da vila, de tradição piscatória, hoje procurada por surfistas do mundo inteiro.

Para assinalar o centenário – cumprido ontem, quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2026 – há um programa especial para os próximos meses. “Queremos manter o Chaby Pinheiro vivo e com actividade”, realça o maestro ligado ao festival Jazz Valado. “Tem uma acústica fantástica porque foi preparado para isso”. E explica: “Em qualquer ponto da sala se consegue ouvir sem microfones”.

Fotografia de Ricardo Graça

Uma jóia, que vem merecendo cuidados e atenção. “A Confraria tem feito um esforço incrível, que eu louvo, na manutenção do edificio”, assegura Adelino Mota. Janelas novas copiadas do desenho original, o telhado arranjado recentemente e em breve uma casa de banho para pessoas com mobilidade reduzida, que não existia. Também o sistema de som e luz tem recebido melhoramentos.

Em parceria com a Confraria, o Município da Nazaré pretende, então, levar ao Chaby Pinheiro espectáculos de música, teatro e dança contemporânea, envolvendo artistas e associações locais e de fora do concelho, que vão dar seguimento aos eventos A Caminho do Centenário, oferecidos anteriormente.

Face ao contexto provocado em Portugal pela depressão Kristin, e pelo mau tempo dos dias seguintes, a que o Chaby Pinheiro escapou, a programação só deverá arrancar no próximo mês, mas já esta sexta-feira, 6 de Fevereiro, a RTP vai transmitir dali o programa da tarde apresentado por Tânia Ribas de Oliveira.

Fotografia de Ricardo Graça

O projecto inicial para a construção do Chaby Pinheiro data de 1908 e é da autoria do arquitecto Ernesto Korrodi, de origem suíça, que se radicou em Leiria e marcou a arquitectura portuguesa.

Na actualidade, o Chaby Pinheiro conserva toda a beleza e riqueza interior, que inevitavelmente surpreende quem não o conhece. Adelino Mota não duvida: em Portugal, “há muito poucos teatros que tenham estas configurações e capacidades”.