Sociedade
Praia da Vieira depois da Kristin: Verão ameno e ainda muitos estragos por pagar
Localidade recupera da tempestade, mas comerciantes continuam à espera de apoios
Sete meses depois da tempestade Kristin, a Praia de Vieira de Leiria reergueu-se para aproveitar um dos verões mais amenos dos últimos anos, mas ainda com muitos comerciantes à espera que Estado e seguradoras paguem compensações dos estragos.
“A mãe natureza está a compensar a Praia da Vieira pelo mal que lhe fez”, diz o presidente da Associação para o Desenvolvimento Sócio-Cultural da Praia da Vieira, Carlos Monteiro, satisfeito com o verão, que “tem sido dos melhores dos últimos anos”, apesar de "a chuva ter obrigado a cancelar a procissão" naquela zona do concelho da Marinha Grande, distrito de Leiria.
Por iniciativa da associação, e mestria de dois artistas, a praia ganhou dois novos murais alusivos às suas tradições, enfeitou-se para a festa anual e recebe os veraneantes com uma tenda de animação a ostentar um cartaz com a inscrição “A vida fica melhor na Praia da Vieira”. Mas não ao mesmo ritmo para todos.
Na marginal, agora enfeitada para a festa e com todos os candeeiros a funcionar, o Âncora foi o último bar a abrir portas, na quarta-feira, dia 19, “para tentar, pelo menos, fazer algum dinheiro para pagar os ordenados”, diz o proprietário, Ricardo Costa.
Na madrugada de 28 de Janeiro a fúria do vento não deixou tábua sobre tábua do bar construído há 23 anos, com madeiras vindas do Brasil, e remodelado há anos.
Foram precisos 11 contentores para retirar todos os destroços do estabelecimento, que demorou seis meses a ser reerguido e onde os prejuízos e a reconstrução ascenderam a “meio milhão de euros”, contabiliza Ricardo. Destes, “o seguro só pagou 150 mil” e do Estado a única ajuda foi “70% do lay-off dos trabalhadores, mas só nos primeiros meses”.
“É difícil encontrar resiliência para voltar a pôr tudo de pé, mas a vida tem que continuar”, diz o empresário, sem esquecer a destruição deixada pela tempestade e espelhada numa fotografia de grandes dimensões, afixada numa das paredes do bar, para que quem visita o espaço “tenha uma ideia da dimensão” do que ali se viveu.
Para quem viu de perto e ajudou a limpar os destroços, como os escuteiros da Vieira de Leiria e de Albergaria-a-Velha, a foto “é uma homenagem” que Ricardo quer complementar com “uma churrascada”.
“Para agradecer a ajuda que nos deram quando nem tínhamos sequer água ou luz para fazer as limpezas”, afirma, lamentando, contudo, que “mesmo sem luz e sem contador a EDP tenha mandado um fatura de 800 euros”.
Destruição total foi também o que encontrou, há sete meses, João Ramusga, proprietário da marisqueira Lismar “O Ledo”, reaberta no dia 6 de Julho, depois de uma remodelação de 350 mil euros, dos quais a comparticipação do seguro só foi paga na semana passada.
“Foi muito duro, a casa destruída, cinco meses sem faturar” e sete funcionários em lay-off, com “dois meses ainda por receber do Estado”, relata.
Mauro Feitas, pelo contrário, beneficiou “de ter sido dos primeiros a abrir”, o que valeu ao Cardume receber a clientela dos restaurantes e cafés que se mantiveram fechados nos primeiros meses após a tempestade.
O verão ameno “tem ajudado a recuperar o negócio, mas nota-se que as pessoas têm menos dinheiro e o que foi realmente uma grande ajuda foi o alívio fiscal durante seis meses”, embora “o ‘lay-off’ dos trabalhadores só tenha sido pago em fevereiro”, e o empresário e a mulher tenham ficado “sem receber e com dois filhos para alimentar”.
No Flor do Liz, Bruno Gomes também ainda espera que o Estado pague “dois meses que estão” em falta do ‘lay-off’ dos oito funcionários do restaurante, onde o negócio “está mais fraco desde a segunda quinzena de agosto”. Valem aos comerciantes “muitos clientes que aparecem para ver como vão as coisas e a querer ajudar” e a dinâmica de um comunidade que “está de parabéns por tudo o que fez para preparar a época balnear”.
Essa, diz Cláudio Cabral, “está a correr tão bem como não se via há muitos anos: bom clima, água mais quente e muita gente a aproveitar a praia”. Depois da tempestade que causou prejuízos de 35 mil euros no Restaurante Cabral, o proprietário ainda aguarda que “o seguro pague a segunda tranche dos prejuízos, referente aos riscos elétricos”.
Na praia, onde a destruição foi rápida e a recuperação é lenta, Cláudio aprendeu a “esperar com calma”. O dinheiro do seguro “há de chegar”, como o peixe na rede do barco de arte xávega que observa do paredão.
A dois ritmos segue também a recuperação das típicas casinhas de riscas à entrada da praia: as da venda de peixe foram reparadas, as de bolos e frutos secos “só vão ter telhado posto em setembro”, explica a vendedora Cecília Silva.
“Tivemos que ser nós a cobrir os telhões que se partiram”, lembra, enquanto Carina Silva, numa banca próxima, ressalva que “quando chove ainda pinga” em cima da mercadoria.
E se a chuva não preocupa estas vendedoras, o mesmo não se pode dizer do vento - “sempre que sopra mais forte já há pessoas as fecharem as portas, com medo”, relatam os comerciantes.
À cautela, o dono do Flor do Liz vai “comprar tábuas, para proteger portas e janelas, porque os alertas dizem que vem aí o ‘El Niño’”. E no “Ledo” João Ramusga já trocou o telhado por placa: “Se vier um vendaval, pelo menos as telhas não nos leva.”