Viver
Palavra de Honra | Ter compaixão pode dar sentido à nossa vida
Ana Carvalho, presidente da direcção da Associação Leiria Compassiva
- Já não há paciência... para a falta de empatia e de tolerância; para extremismos, quaisquer que sejam; para as vidas perfeitas que só existem nas redes sociais (até o cinema é mais real); para os “achismos” nos comentários, vendidos como verdades absolutas.
- Detesto... cobras, serpentes e afins (talvez uma terapia explique o motivo dessa fobia desde que me conheço). Detesto ver incompetência descarada, mas superiormente conivente. Detesto atitudes calculistas, mesquinhas e maliciosas.
- A ideia... de ter uma comunidade mais compassiva é um propósito. Quem disse que ter compaixão é sentir pena de alguém ou que é apenas um conceito muito usado na religião? Aprendi que é um músculo que, bem trabalhado, pode dar sentido à nossa vida.
- Questiono-me se... eu não gostar de mim, quem gostará? Um slogan bem conhecido que mantém a autoestima equilibrada.
- Adoro... adormecer na praia, com o som do mar no ouvido; ler; os dias de sol de inverno; o silêncio (que é raro e um feito numa casa tão populosa); e rir, sobretudo, de mim própria.
- Lembro-me tantas vezes... de quem tenho saudades por já não estar neste mundo. Essas ausências vão sendo suavizadas com boas memórias e com confidências feitas em pensamento.
- Desejo secretamente... continuar a preencher a minha lista de conquistas e a desafiar-me. Podemos ser tantas coisas ao mesmo tempo e essa oportunidade de jogarmos em vários campos torna-nos mais humanos.
- Tenho saudades... das férias escolares de verão; do tempo que parecia parar; de inventar o que fazer para contrariar o tédio; de manteiga a derreter no pão acabado de sair do forno; das muitas atividades e aventuras escutistas; de acreditar que todas as pessoas são genuinamente boas.
- O medo que tive... quando, um dia à noite, senti o primeiro sismo da minha existência, com a mesa da cozinha a deslocar-se sozinha. Só percebi o que tinha acontecido quando parou. Devia ter uns sete ou oito anos e foi a primeira vez que tive a consciência de que há situações que não conseguimos prever ou controlar.
- Sinto vergonha alheia... de comportamentos disparatados, sem condição clínica que o justifique, de atitudes espalhafatosas, típicas de pessoas egocêntricas e narcísicas, e de ouvir discursos onde são dados muitos pontapés na gramática.
- O futuro... diz que a morte é a única coisa certa que temos nesta vida. Por isso, importa relativizar o menos positivo e aproveitar o melhor da vida, que é tão efémera.
- Se eu encontrar... uma bola de cristal, com poderes mágicos, vou tentar influenciar quem só vê o seu umbigo, para evidenciar que somos mais felizes em comunidade.
- Prometo... manter-me dedicada à serendipidade, uma palavra que aprendi numa série, e que significa a capacidade ou o dom de fazer descobertas valiosas e positivas, por acaso, enquanto se procura outra coisa.
- Tenho orgulho... dos meus e da minha prole, dos meus amigos, e espero na eternidade poder orgulhar-me de ter deixado um legado de valores.