Sociedade

Na tempestade Kristin, “penso que as pessoas da Bajouca não se sentiram sozinhas”

6 mai 2026 13:48

Há poucos meses no cargo, Sílvio Cabecinhas, presidente da Junta da Bajouca, teve na tempestade Kristin o seu primeiro grande desafio ao serviço da população

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Claúdia Gameiro

. Para este ex-missionário, que chegou a conviver com paramilitares na Colômbia, o mais importante são as pessoas. Como foram estes tempos para a freguesia?
Para a freguesia, o dia 28 de Janeiro foi um choque, como penso que para toda a gente. Senti-me um pouco perdido. Sou presidente da junta há uns meses, ainda se estão a conhecer os cantos à casa e, de repente, surge uma situação em que não se sabe bem o que fazer. Depois, entra-se num modo um pouco mais automático.

O que marcou mais aquele primeiro dia?
O ponto mais marcante foi termos conseguido criar aquele centro de operações no café das piscinas. Ao final do dia, fizemos uma reunião para as pessoas (deixámos um recado a avisar). Uma das grandes preocupações eram as comunicações e a internet. Como não consegui encontrar, uma Starlink, no outro dia de manhã, consegui que ma comprassem em Lisboa e a fossem logo buscar.

E nos dias que se seguiram?
Não tínhamos uma organização muito fixa. O executivo da junta não está permanente, mas ficámos permanentes dentro da lógica da Protecção Civil. Todos os dias, por volta das 07h30, encontrávamo-nos no café das piscinas e combinávamos o dia. Juntámos também os escuteiros e voluntários e abordávamos as várias vertentes: limpar estradas, o principal nos primeiros dias; visitar casas e reparar telhados. Inicialmente, não pensámos muito no apoio alimentar, mas acabámos por nos aperceber de que havia essa necessidade, inclusive porque as pessoas que não tinham dinheiro vivo em casa e não podiam ir às compras. Foram dias muito intensos: saía de casa às 07h00 e voltava às 20h00/21h00, sempre a circular pela freguesia.

Mantiveram as reuniões com a população?
Tínhamos reuniões com a freguesia a cada três ou quatro dias. Fizemos a primeira logo no segundo dia. Achei interessante, porque acho que é bom dar a cara às pessoas. Acabámos por organizar esses encontros no pavilhão, onde eu fazia um ponto de situação e abria a discussão. Nos primeiros 15 dias funcionava muito bem. Eram reuniões bastante agradáveis, porque se conseguiram encontrar soluções que davam um certo conforto às pessoas. Conforme o cansaço foi acumulando, começou a ser mais complicado, com muitas perguntas e suspiros. Mas reunimos até todas as casas terem electricidade, no final de Fevereiro.

Falou em 150 telhados danificados...
Na contabilização que fizemos, foram à volta de 150 telhados em que intervimos directamente com as nossas equipas. Na Bajouca, terão sido cerca de 60% os telhados danificados.

O que considera que funcionou bem nesta freguesia, tendo em conta todo o caos?
Foi a própria proactividade das pessoas, que não ficaram à espera que a junta fizesse tudo. As pessoas organizavam-se, preparavam-se, informavam e viam como podíamos ajudar. Tinha pessoas a vir ter comigo a informar da sua disponibilidade para ajudar e do que podiam fazer, como arranjar telhados, trabalhos que, de outra forma, se tornavam impossíveis, porque estava a chover e era perigoso. Também foi muito boa a forma como a Câmara organizou os briefings, aquele grupo de trabalho diário. Para mim não era fácil, porque tinha de deixar aqui as pessoas no ponto forte do trabalho, mas era muito importante para saber o que estava a ser feito e partilhar experiências. Mas o principal foram mesmo as pessoas, que se organizavam espontaneamente, e as próprias empresas. Não nos faltaram os meios.

O que decidiram fazer com a madeira?
Comecei a puxar esse assunto nas reuniões com a população. Falei em contactar um madeireiro e limpar tudo. As pessoas não contestaram. A ideia foi amadurecendo e o objectivo é ter um madeireiro a fazer as faixas de gestão de combustível e a desobstruir os caminhos que ainda têm madeira a bloquear. Toda essa madeira vai ser pesada e paga, preferencialmente directamente ao proprietário. Onde não houver dono conhecido, ficamos nós com o crédito do valor para depois entregar. Se sobrar alguma coisa, havemos de decidir em comunidade, numa dessas reuniões.

Como avalia este seu primeiro grande choque como presidente da junta?
Tenho dificuldade em avaliar. Penso que as pessoas da Bajouca não se sentiram sozinhas.

Que tipo de medidas de prevenção de catástrofes pensa que se poderiam implementar num território como a Bajouca? Falou que os cabos estão enterrados, mas tiveram problemas com as comunicações na mesma.
Vamos ter de intervir na qualidade da construção, ligeiramente mais cara mas mais resistente. Acho que é uma área em que vai ter que se intervir, no sentido de preparar para ventos acima dos 150 km/h. Toda a gestão da floresta tem de ser repensada. Não podemos continuar a ter árvores a cair em cima das linhas de média tensão. Depois, tudo o que é saneamento e águas pluviais, pensar em soluções que evitem estações elevatórias. As pessoas têm de ser preparadas para este tipo de acontecimentos, assim como os meios e a formação, para gestão de stress e ansiedade. Neste edifício [junta de freguesia], o quadro eléctrico já tem o disjuntor para ligar a um gerador. Já ficou tudo pronto. Estamos também a criar o nosso kit de emergência da freguesia com um sistema de comunicações alternativo (melhor que as rádios que tínhamos, que não funcionaram muito bem); já temos uma Starlink; um gerador, com um manual de utilização; fogareiros a gás para auxiliar as pessoas; bens de primeira intervenção. Vamos incentivar as pessoas a terem o seu kit de emergência, mas esperamos que nunca seja necessário. Penso que as unidades locais de Protecção Civil podem ser o centro disto.

Tornou-se cabeça-de-lista à junta de freguesia após o afastamento do anterior candidato, que era o então presidente. Como foram os primeiros meses, antes da Kristin?
Foram meses tranquilos, a conhecer as coisas. Estávamos a fazer uma transição suave. As pessoas que estavam anteriormente continuam a apoiar-nos, pelo que acaba por ser fácil a transição. A equipa do executivo trabalha muito em conjunto. Eu gosto de trabalhar assim.

Como tem sido a relação com a Câmara de Leiria?
Tem sido boa, não somos pessoas conflituosas. O executivo da câmara está lá porque quer fazer alguma coisa por Leiria, que considera ser bom para o concelho. Ao quererem ser bons para Leiria, querem que eu seja bom para a Bajouca. O meu sucesso é o sucesso da Câmara. Isto é um trabalho em conjunto. Temos de deixar as cores um pouco de lado.