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Lentriscas em Castelo | Solar da Barreira: vinte anos de identidade
A cozinha continua fiel à sua matriz: cabidelas, mão de vaca com grão, dobrada, cozido à portuguesa, chanfana e outros clássicos da cozinha portuguesa. Comida de conforto, generosa e de grande nível
Na Barreira, o Solar da Barreira já faz parte da paisagem há vinte anos. Deolinda Gomes abriu o restaurante a 13 de Outubro de 2006 e hoje são os filhos, Paulo Carvalho e Beatriz Carvalho, que continuam a casa com a mãe. Tornou-se familiar em mais do que um sentido.
A cozinha continua fiel à sua matriz: cabidelas, mão de vaca com grão, dobrada, cozido à portuguesa, chanfana e outros clássicos da cozinha portuguesa. Comida de conforto, generosa e de grande nível, onde o produto e a mão de quem cozinha continuam a mandar. Não é preciso reinventar aquilo que já está bem feito.
Começámos com azeitonas e pão, depois morcela de arroz e uma lentrisca grelhada no ponto certo, com a gordura bem controlada e o sabor do peixe intacto. É o tipo de cozinha que não precisa de grandes efeitos quando o produto é bom e a grelha sabe o que fazer com ele.
O bacalhau assado chegou em dose generosa, com as tradicionais migas de Leiria, batata a murro e azeite a ligar tudo. O bacalhau estava bem tratado, as migas tinham sabor e a batata estava no ponto. Na carne, uma peça grelhada, tenra e saborosa, acompanhada por arroz de feijão e batatas fritas da casa. O arroz, particularmente bem feito, merece destaque: saboroso, com boa textura e personalidade suficiente para não passar despercebido.
Garrafeira com ambição
E depois há o vinho. Paulo Carvalho leva esta parte a sério. A garrafeira reúne referências portuguesas e internacionais escolhidas com critério, conhecimento e gosto. Não está ali para cumprir tabela. Há escolhas cuidadas, vinhos com identidade e referências que merecem que se pare para olhar para a lista com atenção. É uma garrafeira com ambição e, sobretudo, com critério. E isso nota-se.
Nas sobremesas, a tarte de maçã com gelado de baunilha esteve muito bem e o molotof fechou a refeição à altura do que veio antes. Duas sobremesas diferentes, mas ambas bem executadas e sem perder de vista aquilo que a casa sabe fazer.
No conjunto, é uma casa onde a excelência se constrói na consistência. Produto muito bem escolhido, cozinha segura, serviço atento, doses generosas e uma relação entre o que se come e o que se paga que continua a fazer sentido. Não é apenas um prato bem conseguido: é a sensação, mais rara, de que a refeição inteira está nas mãos de quem sabe o que está a fazer.
Vinte anos depois, Deolinda Gomes e os filhos mantêm uma casa familiar com uma exigência profissional evidente. Há trabalho, conhecimento e dedicação por trás desta aparente simplicidade. O Solar da Barreira sabe de onde vem, sabe o que quer pôr na mesa e conseguiu chegar aos vinte anos sem perder identidade. Continua a cozinhar muito bem, a receber bem e, que é o que interessa, a dar razões para voltar.