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Lentriscas em Castelo | João Gordo: o caminho do prazer
Ao longo de mais de quatro décadas, tornou-se uma referência de Leiria não por seguir tendências ou procurar reinventar-se constantemente, mas por uma razão mais simples: nunca perdeu de vista o prazer de quem se senta à mesa
O João Gordo faz parte daquele pequeno grupo de restaurantes que acabam por pertencer à cidade. Ao longo de mais de quatro décadas, tornou-se uma referência de Leiria não por seguir tendências ou procurar reinventar-se constantemente, mas por uma razão mais simples: nunca perdeu de vista o prazer de quem se senta à mesa.
A casa abriu portas em 1984 pelas mãos de João Gordo e Maria de Lurdes. Como tantas histórias bem-sucedidas da restauração portuguesa, começou sem discursos elaborados nem ambições de grandeza. Havia apenas a vontade de receber bem, servir com consistência e respeitar o produto.
Em 1989, com a morte de Maria de Lurdes, a história da casa entrou numa nova fase. O Nuno cresceu dentro desse processo. Cresceu entre a sala e a cozinha, entre clientes habituais e marisco acabado de chegar, absorvendo os ritmos de uma casa que fazia parte da cidade e da sua própria vida. Talvez por isso nunca tenha sentido necessidade de transformar o João Gordo noutra coisa. O seu percurso passou por compreender aquilo que já lá estava e levá-lo mais longe.
Quando a matéria-prima é boa
A nossa refeição começou com uma excelente alheira, bem tostada por fora e cremosa no interior, daquelas que lembram porque razão Trás-os-Montes continua a ser uma das grandes reservas gastronómicas do país. Seguiram-se camarão, percebes e marisco fresco, servidos sem artifícios e com a confiança de quem sabe que o produto não precisa de esconder-se atrás de nada. Houve também presunto de corte fino, onde a cura, a gordura e o sal apareciam em equilíbrio, confirmando uma ideia que atravessa toda a refeição: quando a matéria-prima é boa, a inteligência está muitas vezes em não complicar.
O momento mais marcante chegou com um carpaccio de vaca maturada, caviar e ovos rotos de carabineiro. A Rita termina o prato na mesa, utilizando os sucos do carabineiro para envolver os ovos rotos e unir todos os elementos. O resultado é surpreendentemente harmonioso. A riqueza da gema, a profundidade do carabineiro, a intensidade da carne maturada e a precisão salina do caviar encontram um equilíbrio raro. Foi um dos pratos mais memoráveis da refeição e uma demonstração clara de como ingredientes intensos podem coexistir quando existe critério na sua construção.
Seguiu-se um arroz de santola servido na própria santola, gratinado e cheio de sabor. É um prato rico e profundamente satisfatório, equilibrado por uma salada fresca cortada no momento, que introduz o contraste necessário sem lhe retirar carácter.
No final chegaram a tradicional brisa do Lis e um mascarpone fresco com crumble. Duas sobremesas de perfis distintos, ambas bem executadas, a encerrar o almoço com a mesma naturalidade que marcou toda a refeição.
Mais do que experiência
Ao longo da mesa percebe-se que existe aqui mais do que experiência ou conhecimento técnico. Existe sensibilidade. Nuno Lopes possui uma qualidade rara: uma compreensão intuitiva do sabor. Percebe o produto, respeita-o e trabalha-o sem o aprisionar a fórmulas ou modas passageiras. Vai afinando, experimentando e corrigindo, sempre com o mesmo objectivo. Não impressionar. Dar prazer.
Talvez seja essa a razão pela qual tantos pratos permanecem na memória muito depois da refeição terminar. E talvez seja também por isso que o João Gordo continua a ocupar um lugar especial na restauração leiriense. Não apenas pela sua história, mas porque continua a oferecer uma coisa cada vez mais rara: comida capaz de nos fazer genuinamente felizes.
João Gordo
Rua D. Carlos I, 29
Leiria
244 881 483
Artigo publicado originalmente na edição impressa 2186 do JORNAL DE LEIRIA, de 4 de Junho de 2026