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Lentriscas em Castelo | Ikigai: o rigor como ponto de encontro
Cátia Gonçalves e Attila Szabó protagonizam o encontro entre dois percursos distintos, mas com a mesma obsessão pelo detalhe
A cozinha da Cátia Gonçalves e do Attila Szabó nasce do encontro entre dois percursos distintos, mas com a mesma obsessão pelo detalhe. O Ikigai abriu no dia de Tanabata, um momento do calendário japonês associado ao encontro e à ideia de ligação entre caminhos. No fundo, há nomes que já trazem dentro de si uma direção. No Ikigai há uma ideia clara desde o início: precisão, técnica e uma cozinha que não precisa de se explicar para se perceber.
A Cátia vem de um percurso que começa cedo, na cozinha do Gondesende, onde cresce a acompanhar o trabalho dos pais, Álvaro Gonçalves e Maria Elisa. É aí que entra pela primeira vez na cozinha como ofício, antes de qualquer narrativa mais romantizada da profissão. O caminho segue depois entre Leiria, Cascais e a Noruega, onde o contacto com a cozinha japonesa contemporânea se torna mais direto e mais técnico.
O Attila traz uma base centrada na execução rigorosa da cozinha japonesa, construída em contextos internacionais onde a precisão não é uma escolha estilística, mas uma exigência constante. Duas formações diferentes que acabam por se encontrar no mesmo ponto.
Construção e equilíbrio
A refeição começa com um sashimi de robalo com ponzu. Um prato simples na forma, mas muito limpo na intenção: peixe no centro, tudo o resto reduzido ao essencial. O ponzu entra como acidez medida, quase silenciosa, apenas para levantar o produto. Segue-se o atum com soja trufada. Mais denso, mais profundo, com a trufa a aparecer como aroma de fundo, sem nunca dominar o conjunto.
Os croquetes de rabo de boi com maionese de yuzu e bonito flakes mudam o registo. Aqui há conforto, mas sem perder o rigor. A carne tem tempo e profundidade, o yuzu corta a gordura com uma acidez muito limpa e o bonito acrescenta uma camada de umami que fica no fundo do palato. As tempuras chegam leves, secas e precisas, sem qualquer sensação de excesso de gordura. A seguir, uma sequência de nigiris e makis onde a mão do Attila é evidente: arroz calibrado com rigor, peixe cortado com precisão e peças construídas para deixar o ingrediente falar sem interferências.
O katsu sando mantém essa linha — crocante, suculento, direto na forma como se apresenta. Nas sobremesas, percebe-se outro nível de controlo. Tudo é feito na casa, desde as bases aos sorbets. Há um trabalho muito claro de construção de textura e de equilíbrio entre gordura, acidez e frescura. A mousse de coco com merengue de yuzu e sorbet de maracujá joga nesse equilíbrio com uma leveza que não perde definição. A tarte de mousse de miso, framboesa e shiso introduz referências japonesas de forma contida, sem decoração excessiva. O fondant de chocolate com gelado de baunilha fecha a refeição de forma clássica, quase deliberadamente simples.
No Ikigai não há uma fusão forçada de estilos. Há duas formas de cozinhar que coexistem no mesmo espaço sem se anularem. E isso sente-se na forma como a refeição avança — sem ruturas, mas também sem uniformização. A Cátia e o Attila não procuram uniformizar o que fazem nem construir uma assinatura única. O que se sente é outra coisa: uma forma de trabalho que aceita a diferença como parte da identidade do projeto. Não há vontade de fechar a cozinha numa linguagem única, nem de a reduzir a uma ideia fácil de coerência. Existe uma disciplina partilhada que permite levar cada prato até ao fim sem ruído, sem pressa e sem necessidade de justificar o resultado. Talvez seja esse o verdadeiro significado do Ikigai. Não a soma dos estilos, mas a forma como dois modos de cozinhar encontram uma razão comum para existir.