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Lentriscas em Castelo | Ikigai: o rigor como ponto de encontro

29 ago 2026 11:45

Cátia Gonçalves e Attila Szabó protagonizam o encontro entre dois percursos distintos, mas com a mesma obsessão pelo detalhe

A equipa do Ikigai, em Leiria
A equipa do Ikigai, em Leiria
Ricardo Graça
No Ikigai não há uma fusão forçada de estilos
No Ikigai não há uma fusão forçada de estilos
Ricardo Graça
Trazer o Oriente para a mesa em Portugal
Trazer o Oriente para a mesa em Portugal
Ricardo Graça
Uma cozinha que não precisa de se explicar para se perceber
Uma cozinha que não precisa de se explicar para se perceber
Ricardo Graça
Uma forma de trabalho que aceita a diferença como parte da identidade
Uma forma de trabalho que aceita a diferença como parte da identidade
Ricardo Graça
O restaurante está localizado na zona de São Romão
O restaurante está localizado na zona de São Romão
Ricardo Graça
Uma disciplina partilhada permite levar cada prato até ao fim sem ruído
Uma disciplina partilhada permite levar cada prato até ao fim sem ruído
Ricardo Graça
Nas sobremesas, tudo é feito na casa, desde as bases aos sorbets
Nas sobremesas, tudo é feito na casa, desde as bases aos sorbets
Ricardo Graça
Duas formas de cozinhar que coexistem no mesmo espaço sem se anularem
Duas formas de cozinhar que coexistem no mesmo espaço sem se anularem
Ricardo Graça

A cozinha da Cátia Gonçalves e do Attila Szabó nasce do encontro entre dois percursos distintos, mas com a mesma obsessão pelo detalhe. O Ikigai abriu no dia de Tanabata, um momento do calendário japonês associado ao encontro e à ideia de ligação entre caminhos. No fundo, há nomes que já trazem dentro de si uma direção. No Ikigai há uma ideia clara desde o início: precisão, técnica e uma cozinha que não precisa de se explicar para se perceber.

A Cátia vem de um percurso que começa cedo, na cozinha do Gondesende, onde cresce a acompanhar o trabalho dos pais, Álvaro Gonçalves e Maria Elisa. É aí que entra pela primeira vez na cozinha como ofício, antes de qualquer narrativa mais romantizada da profissão. O caminho segue depois entre Leiria, Cascais e a Noruega, onde o contacto com a cozinha japonesa contemporânea se torna mais direto e mais técnico.

O Attila traz uma base centrada na execução rigorosa da cozinha japonesa, construída em contextos internacionais onde a precisão não é uma escolha estilística, mas uma exigência constante. Duas formações diferentes que acabam por se encontrar no mesmo ponto.

Construção e equilíbrio

A refeição começa com um sashimi de robalo com ponzu. Um prato simples na forma, mas muito limpo na intenção: peixe no centro, tudo o resto reduzido ao essencial. O ponzu entra como acidez medida, quase silenciosa, apenas para levantar o produto. Segue-se o atum com soja trufada. Mais denso, mais profundo, com a trufa a aparecer como aroma de fundo, sem nunca dominar o conjunto.

Os croquetes de rabo de boi com maionese de yuzu e bonito flakes mudam o registo. Aqui há conforto, mas sem perder o rigor. A carne tem tempo e profundidade, o yuzu corta a gordura com uma acidez muito limpa e o bonito acrescenta uma camada de umami que fica no fundo do palato. As tempuras chegam leves, secas e precisas, sem qualquer sensação de excesso de gordura. A seguir, uma sequência de nigiris e makis onde a mão do Attila é evidente: arroz calibrado com rigor, peixe cortado com precisão e peças construídas para deixar o ingrediente falar sem interferências.

O katsu sando mantém essa linha — crocante, suculento, direto na forma como se apresenta. Nas sobremesas, percebe-se outro nível de controlo. Tudo é feito na casa, desde as bases aos sorbets. Há um trabalho muito claro de construção de textura e de equilíbrio entre gordura, acidez e frescura. A mousse de coco com merengue de yuzu e sorbet de maracujá joga nesse equilíbrio com uma leveza que não perde definição. A tarte de mousse de miso, framboesa e shiso introduz referências japonesas de forma contida, sem decoração excessiva. O fondant de chocolate com gelado de baunilha fecha a refeição de forma clássica, quase deliberadamente simples.

Foto de Ricardo Graça

No Ikigai não há uma fusão forçada de estilos. Há duas formas de cozinhar que coexistem no mesmo espaço sem se anularem. E isso sente-se na forma como a refeição avança — sem ruturas, mas também sem uniformização. A Cátia e o Attila não procuram uniformizar o que fazem nem construir uma assinatura única. O que se sente é outra coisa: uma forma de trabalho que aceita a diferença como parte da identidade do projeto. Não há vontade de fechar a cozinha numa linguagem única, nem de a reduzir a uma ideia fácil de coerência. Existe uma disciplina partilhada que permite levar cada prato até ao fim sem ruído, sem pressa e sem necessidade de justificar o resultado. Talvez seja esse o verdadeiro significado do Ikigai. Não a soma dos estilos, mas a forma como dois modos de cozinhar encontram uma razão comum para existir.