Sociedade

Helena Serra: "[Crianças sobredotadas] Sentem que estão sempre a ouvir a mesma coisa”

19 out 2026 14:11

Presidente da Associação Portuguesa de Crianças Sobredotadas diz que "a escola está pensada para o nível comum das crianças"

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Quais as maiores dificuldades que as crianças com altas capacidades enfrentam no seu percurso de aprendizagem?
Uma das dificuldades é o desencanto com o dia-a-dia escolar, pelo facto de estarem inseridas em grupos nos quais, a maioria das crianças, tem um desenvolvimento padrão. Estas crianças, em muitas habilidades, estão muito à frente do comum das crianças da sua faixa etária. O facto de estarem numa sala de aula a ouvir repetidamente as noções que o professor tem de ensinar à turma obriga-as a tempos de desocupação e de espera muito prolongados e isso torna-as infelizes. A escola está pensada para o nível comum das crianças. Não é isso que estas crianças querem saber. Elas querem conhecer coisas novas, precisam de novos desafios e novas aprendizagens.

E ao nível da integração no grupo?
Pode também haver um desfasamento de interesses. No recreio, provavelmente andam preocupadas com o anel do Saturno, com a lagartixa que viram no jardim ou outros aspectos ligados à ciência. Os jogos ou as conversas típicas das crianças comuns podem não lhes dizer muito. As suas brincadeiras não são as mesmas que interessam aos outros. Pelo que, podem isolar- -se. Há um risco de não inclusão, quer pela aprendizagem, quer pela emancipação de interesses comos pares. Acrescento ainda a pedagogia de sala de aula. O professor provavelmente estará ainda muito focado em falar para o grupo. Não posso generalizar porque há professores maravilhosos e que levam para a aula um plano preparado para aquela criança que é muito mais avançada e bastante mais curiosa.

O desencanto com as aulas pode levar essas crianças a desenvolver sentimentos de rejeição da escola?
A certa altura, podem até somatizar o mal-estar na escola. O desgosto pela escola, que não corresponde àquilo que tinham sonhado que iam aprender, pode até fazer com que ganhem febre ou que tenham reacções na pele ou vómitos. Não querem ir às aulas, porque sentem que não vão aprender nada ou que estão sempre a ouvir a mesma coisa.

O que dizem as estatísticas sobre o número de crianças com altas capacidades em Portugal?
Não existem dados específicos. Estudos feitos noutros países indicam que, em cada 100 crianças, três a cinco têm altas capacidades.

A APCS vai ter um pólo em Leiria. Tal, representará mais apoio para crianças e famílias?
Vai trazer a possibilidade de a câmara, através dos seus técnicos e de mão dada com as escolas e com outras entidades, fazer avaliações e formação de professores e de famílias e dar apoio a casos que precisem de acompanhamento. Tudo isto será feito seguindo as metodologias da associação, com o nosso o know-how. Haverá um reforço das respostas às famílias, às crianças, às escolas e aos professores.

 

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